Cobertura 4º "Olhar de Cinema", dia 4.

Por Alexander Aguiar.

Muitas horas de filme e poucas horas de sono acabaram por me afastar das atualizações sobre o festival nos últimos dias, mas de qualquer forma é sempre uma ótima desculpa estar afastado do “ofício” por estar de fato imerso na programação do festival.

Iniciando a programação do quarto dia de Olhar de Cinema, fui conferir dois filmes do homenageado da Mostra Foco, Nathan Silver: “The Blind” e “Anecdote“. Minha primeira impressão é de que os filmes não me impactaram da forma como “Stinking Heaven”, do mesmo diretor, havia feito dias antes, ainda que proponham algo que esteja presente nos filmes exibidos na janela: uma linha tênue entre ironia, entre a graça e a desgraça, entre situações possíveis que se desdobram de maneiras inusitadas. Não só me referindo aos filmes de Nathan, mas uma grande tônica do festival – que reflete, de maneira simbólica, a própria cinematografia contemporânea – são filmes com discursos construídos a partir do silêncio, refletindo um vazio mesmo em grandes planos gerais, o que por vezes é gratificante (na visão do Bressoniano que vos escreve), mas por vezes se revela como um dispositivo “clichê-da-atualidade”. Não é necessariamente o caso de The Blind, ainda que seu silêncio revele muito sobre o grande problema dos casais contemporâneos – a incomunicabilidade, tema magistralmente trabalhado pelo mestre italiano Michelangelo Antonioni. Um casal que não se comporta como padrão da retratação de relacionamentos, mas que certamente é muito mais presente do que isso: alguém que ama demais, porque precisa amar/alguém que ama de menos, porque precisa ser amado. É o caso do relacionamento entre Marcus e Kate. À medida que Marcus inconstantemente busca meios de se afastar de Kate, essa age conforme os estereótipos da “boa companheira que fará papel de boa esposa”, e isso se expande através de uma violência velada causada por um sentimento de posse, de ciúmes, de abusos e de indiferenças. A linha entre o irônico no sentido de explicitar a situação acaba por se perder em termos por uma certa legitimação desse tipo de situação, como se somente o ato de uma permanência conjunta referendasse a violência e tabus entre a exploração sentimental dos protagonistas.
Ainda apostando nessa mesma temática de violência velada, não-pertencimento e a busca por alternativas viáveis, “Anecdote” constrói seu discurso. Sua protagonista, Kate (sim, as personagens dos dois filmes compartilham do mesmo nome), é uma jovem que busca alternativas para sua existência e necessidade de prosseguir em alguma profissão que a defina. Desistindo da carreira jurídica e partindo para serviços domésticos, Kate parece estar eternamente envolvida com a sujeira, tanto moral quanto a literal. Mas em sua nova profissão, ela também irá se deparar com dilemas antigos, e sua situação de “eterno retorno” diante da própria miséria se reflete através de um rompimento total para com todo o meio ao seu redor, inclusive consigo própria.
Temas paralelos, para filmes paralelos, que acabam por representar de certa forma algumas inquietações do cineasta.

Em seguida, parti para a projeção de “Burn the Sea“, co-direção entre a francesa Nambot Nathalie e o tunisiano Maki Berchache. Os dois se conheceram em uma manifestação na França, onde a diretora era uma ativista e Maki, que também é o personagem principal, reivindicava por melhores condições para os imigrantes norte-africanos na Europa. Vale frisar que o tema tem sido bastante discutido em grande parte das produções europeias exibidas no Festival, bem como as consequências devastadoras da globalização em relação à cultura nativa de seus países. O filme associa diversas imagens caracterizadas por grandes planos-sequência que são costuradas pela narração que conta a história da personagem principal, sua família e grupo de amigos, e dificuldades encontradas para se estabelecer em um novo país longe do lar, e mais do que isso, a busca pela aceitação enquanto ser humano. Os imigrantes africanos, tratados como animais em grande parte da Europa, buscam um espaço de integração em meio à sociedade que lhes confira uma vida digna enquanto seu país natal sofre ainda as consequências de uma guerra (caso da Síria), ou consequências ainda desorganizadas da revolucionária Primavera Árabe, caso exposto no filme em questão. O longa também conta com imagens captadas em bitolas como super-8 e 16mm’s, filmadas na Tunísia, onde a aceitação e pertencimento revelam poderoso contraste com a situação de resistência e ocupação dos refugiados que, sem documentos, buscam a legalidade em viagens clandestinas pela Itália e França. Em meio a tantos filmes com temáticas similares, esse certamente não será o de maior destaque, ainda que contenha momentos de puro impacto, como uma sequência onde é descrito o processo burocrático para se legalizar no novo país, numa narração tragicômica e de tirar o fôlego, que acaba por revelar que as fronteiras não são necessariamente geográficas, mas humanas em grande parte das vezes.

Posteriormente, voltei a priorizar a Mostra Competitiva do Festival, onde assisti um dos seus grandes filmes programados até então. “Mercuriales“, longa francês dirigido por Virgil Vernier, possui tantas camadas de interpretações possíveis que parece até difícil elaborar uma crítica que seja de fato sincera sem tomar um grande espaço e sem precisar de uma merecida nova exibição para assimilar muito de suas incontáveis nuances. As torres Mercuriales, edificações modernas e gigantescas, são o ponto inicial de encontro dos personagens do filme. Um segurança, de origem africana, e sua forma de relação com o poder e autoridade, é o primeiro personagem a ser apresentado. Suas personagens principais, no entanto, são uma nativa que se sente deslocada com seu trabalho no local e uma imigrante da Moldávia, solitária, que desconhece todos a seu redor, e acaba construindo junto da nativa uma amizade que por vezes confunde-se com paixão, associada também a uma fraternidade, formas distintas e conflitantes de um amor jamais vivido reciprocamente, mas que por sua vez também jamais se revela obsessivo, mas terno. As duas, por sua vez, possuem uma relação amistosa com outra mulher, também de origem africana, mãe solteira que se prepara para casar. No entanto, a grande personagem relacionada a esse núcleo é a filha, com cerca de dez anos, que revela questões muito verdadeiras sobre o limiar entre a infância e a maturidade, e isso se escancara em uma cena banal mas extremamente impactante. A menina, ao retirar a blusa, nos causa um choque – nada mais normal do que uma criança despida, mas a construção do personagem de forma tão madura nos faz enxergá-la como mulher, e isso é verdadeiramente impactante na construção da narriva, justamente por contrapor a própria questão da maturidade dela com a das amigas “quase-irmãs” que protagonizam o filme, pós-adolescentes que vivem todas as angústias de uma vida periférica de forma jovial e até mesmo inconsequente. Apesar de todos esses encontros, a tônica do filme é a de separação, da incapacidade das pessoas de se sustentarem enquanto sociedade, da dificuldade de viver em harmonia, revelando corpos que buscam aceitação e espaço em uma sociedade que se amontoa, parábola máxima da edificação do próprio Mercuriales, mas que pouco se relaciona de forma incisiva.

Torres Mercuriales, ponto central de partida do longa francês.
Torres Mercuriales, ponto central de partida do longa francês.

Por fim, encerrando a programação do quarto dia, “Angels of Revolution“, do russo Alexey Fedorchenko surpreendeu sobretudo pela trama complexa e um rigor estético impressionante. Ao longo do festival, acredito ainda não ter visto um filme mais rebuscado tecnicamente do que esse – sua fotografia belíssima e rigor absoluto em enquadramentos e alegorias por vezes até mesmo fazem referência a um mestre que é justamente um dos grandes homenageados na mostra, Jacques Tati, reservadas as devidas proporções.
O filme de Fedorchenko retrata um período relativamente desconhecido da história Soviética pós-revolução, a da expansão cultural. Se a revolução que derrubou a dinastia tsarista foi feita com armas e pressão popular, ela deveria se modificar para lidar com seus problemas internos posteriormente – armas são substituídas por ferramentas artísticas, a nova função não é conquistar, mas sim educar, unificar. Pode parecer relativamente distante a história narrada em Angels of Revolution, já que pouco se fala por aqui da estética e temática do chamado Realismo Socialista, ou Jdanovismo, política cultural adotada na era Stalinista sob a batuta de Andrei Zhdhanov. Política essa que consistia em unificar uma nação de proporções continentais sob uma estética comum, simples, voltadas para o cidadão médio de sua época. No filme, um dos momentos mais marcantes – que despertou risadas na plateia – revela algo de muito verdadeiro sobre a própria natureza do regime e sua expansão cultural na época: um grupo de artistas, protagonistas do filme, liderados pela revolucionária Polina, apresenta a um grupo de nativos da região siberiana uma “exposição da alta pintura”, onde são exibidos quadros simples, ilustrados com formas geométricas. Um triângulo é apresentado e logo associado a uma cabana, e quando sua imagem é invertida, um dos nativos ironiza seu amigo: “parece com sua mulher”. Para uma nação até então completamente rural, dividida e em sua grande parte analfabeta, a simplicidade estética (seja em cores, geometrias ou curtas, mas impactantes frases) do Realismo Socialista era nada mais que uma ferramenta de ocupação através da educação e dominação política. Porém, nem tudo era fácil, afinal para os grupos nativos que sequer se comunicavam sob o mesmo idioma (o dialeto Khanty é bastante comum no filme), essa doutrinação significava, a rigor, a morte de sua história e cultura. Ao “revidarem”, os nativos fazem uma contraposição à própria identidade soviética, afinal eles pertencem àquela nova nação geograficamente, mas jamais culturalmente ou politicamente, e acabam por apropriar-se das ferramentas dos seus instrutores para tentar, de alguma forma, continuarem expressando sua própria identidade. Cenas brilhantes integram o longa russo, como a projeção de filmes contra a fumaça de uma fogueira à noite, assim como outra belíssima e perfeitamente executada cena onde a protagonista ensina as mulheres nativas a usar maquiagem diante de espelhos que se amontoam em árvores da região, em um notável contraste causado pelo choque cultural. Um filme de impacto, infelizmente prejudicado em alguns momentos por conta da falta de fidelidade na legendagem.

Com o fim desse dia, o Festival chega em sua metade, mas ainda traz consigo diversas atrações ao longo da semana. Confiram a programação e não deixem de acompanhar as exibições.

Cobertura 4º "Olhar de Cinema", dia 3.

Por Alexander Aguiar.

Quando ainda estava na faculdade, tive acesso à filmografia do cineasta Evaldo Mocarzel, que em suas aulas reproduzia diversos discursos a respeito do fazer e do pensar cinema. Um de seus filmes, que homenageia a Mostra de São Paulo, propõe um questionamento a diversos cineastas, que por mais que pareça premissa básica de toda a realização fílmica, por vezes parece ser deixada de lado: “Filosoficamente, o que é o Cinema?”. Poucas vezes na vida tive acesso a uma resposta tão subjetivamente intensa quanto a que o filme que abriu a programação do terceiro dia propôs. “João Bénard da Costa – Outros amarão as coisas que eu amei“, dirigido por Manuel Mozos, é mais do que um ensaio poético sobre as memórias e reflexões do crítico português, é mais do que uma declaração de amor ao cinema, e muito mais do que pensar sobre a função do tempo, da memória e o medo e o prazer causados pelo desconhecido. É, antes de tudo, uma grande homenagem ao próprio ato de olhar, de observar o mundo ao redor e assim ser capaz de transformar a própria vida através da arte. Com releituras de filmes clássicos como “Johnny Guitar”, de Nicholas Ray (filme que integra a programação do festival na janela dedicada à exibição de clássicos), “A Palavra” de Carl Dreyer, entre outros, o filme de Mozos relaciona a vida, o amor e a esperança sob o prisma de João Bénard, que como poucos amou o cinema. Um dos trechos do filme discorre magistralmente sobre a cinefilia, afirmando que não basta somente assistir e gostar, a verdadeira função da cinefilia é tentar prorrogar ao máximo a sensação que um filme é capaz de nos fazer sentir, e isso se dá também através do ato de debater, de discutir o cinema, de escrever a respeito. De algum modo, o próprio ato de escrever sobre esse filme me faz pensar em coisas sobre o cinema associado à vida que dura muito mais do que a curta duração do filme, cerca de 70 minutos. Até então, a mais grata surpresa da programação, na opinião de muitos que aplaudiram e saíram da sessão dispostos a vivenciar o cinema de maneira muito mais intensa do que através do simples ato de assistir. Por outro aspecto, como é possível escrever sobre um filme sem que esse se prenda necessariamente à necessidade de assisti-lo?

"João Bénard da Costa: Outros amarão as coisas que eu amei", o grande destaque do festival até então.
“João Bénard da Costa: Outros amarão as coisas que eu amei”, o grande destaque do festival até então.

Na sequência, se iniciava uma programação com diversos filmes da Mostra Competitiva. “Koza“, filme dirigido por Ivan Ostrochovský, é por si só um retrato velado de seus países de produção: a Eslováquia e a República Tcheca. A Tchecoslováquia, outrora potência no cenário desportivo mundial, após divisão pacífica de seus países, vive à margem. Koza é um boxeador que teve sua grande glória nas Olimpíadas de Atlanta, em 96, e anos depois se depara com uma luta muito mais intimista e intensa: sua mulher está grávida novamente e não está disposta a prosseguir com a gestação. Sem dinheiro, ele tenta voltar a lutar, mas não é nem de longe o atleta do passado (presumindo que para que ele tenha sido capaz de competir em uma Olimpíada, ele provavelmente aguentava lutar por mais de um round sem sofrer sérias consequências). O filme em si não revela nada de novo, seus dispositivos são convencionais e seus personagens arquetípicos: o herói decadente, o mentor crápula que aos poucos “amolece”, o bêbado cômico, e por aí vai. No entanto, há cenas de qualidades notáveis, especialmente quando se refere justamente ao esporte. As cenas de boxe são, sem sombra de dúvidas, o grande atrativo do filme. Filmadas em planos abertos, conseguimos sentir o cansaço do pugilista que apanha não só de seus oponentes, mas de sua própria decadência. E ainda melhor: o principal momento de luta do filme não é visto, apenas ouvido, enquanto a câmera mostra o nervosismo de seu amigo/mentor que sabe que a última luta de Koza não pode acabar em boa coisa. Sua tensão, somada ao som crescendo da reação do público, cria no espectador um terceiro sentido, que nos coloca sob o prisma de justamente quem não está em cena.

Uma das medidas que adotei para esse festival, foi tentar assistir todos os filmes sem saber absolutamente nada sobre eles. Sem sinopses, nem trailers, nem a busca pela associação de trabalhos anteriores dos diretores, e isso às vezes nos reserva gratas surpresas. O filme que assisti na sequência, “I am the People“, é um grande retrato da reação do assim chamado “povo comum” do Egito durante a Primavera Árabe, com a queda de Mubarak. Filmado através da lente de Anna Roussillon, que também é um personagem ativo dentro de sua própria narrativa documental, o longa consegue capturar momentos incríveis e extremamente humanos. Sempre tratada com um distanciamento por conta de sua condição de imigrante – a diretora vive na França -, Anna tem como grande trunfo de sua obra diálogos com pessoas que a rodeiam naquela comunidade rural do Egito. Ao acompanhar de perto uma família, a diretora é capaz de documentar a formação e transformação política de seus entrevistados. Relutantes, reacionários, pró-revolução e posteriormente inconformados com os rumos que seguiram as eleições no país, o que gera uma nova onda de protestos, seus personagens carregam consigo questionamentos e contradições que revelam de forma simples mas direta como a situação econômica da nação afeta até mesmo quem vive afastado dos grandes centros. A escassez e os aumentos constantes no preço do gás são um microcosmo de todas as dificuldades vividas por países em desenvolvimento. O que difere a democracia do outrora chamado “terceiro mundo” da democracia francesa, estruturada desde a Idade Moderna até a Contemporânea? Questões que nos fazem pensar sobre os rumos que as revoluções recentes no “mundo árabe” devem continuar a traçar até que as demandas populares estejam de acordo com seu regimento sócio-político.
Nos últimos anos, diversos filmes sobre protestos pipocaram ao redor do mundo, revelando a crise política e econômica do zeitgeist da globalização, no entanto poucos tem o poder de nos tocar como “I am the People”, e a razão é basicamente simples: ao não tentar abranger o conflito pelo topo, mas sim pelo prisma familiar, a realizadora é capaz de atingir ao espectador como poucos.

Para finalizar o dia, segui para a sessão de “Story of Judas“, que a rigor não propunha nenhuma nova discussão estética ou temática, mas uma versão alternativa à tradicional história bíblica, uma espécie de “Evangelho Segundo Judas”, onde este seria o apóstolo mais devoto da palavra de Jesus de Nazaré. A proposta não é necessariamente nova, mas é sempre intrigante ver adaptações do evangelho sob diferentes prismas culturais, nesse caso todo a partir de um ponto de vista francês, sob a direção de Rabah Ameur-Zaï-Meche. Outras adaptações culturais sobre o tema também são expressivas, como a adaptação do clássico da literatura russa “Mestre e Margarida”, ou mesmo as mais recentes com Mel Gibson e assemelhados. Todavia, as imagens do longa são belíssimas, com planos bem enquadrados e encenados, com destaque para a cena do pesar de Carabás após a crucificação de Cristo, em um cenário árido à Kiarostami, com (pasmem!) uma utilização de muito bom gosto de um zoom óptico, coisa rara de se ver em cinematografias contemporâneas. Judas, que jamais teria sido um traidor, é condenado pela história graças ao escriba, com quem ele cria uma desavença após queimar seus manuscritos contando a história de Jesus de Nazaré. Após a morte de Cristo, a Judas só resta lamentar e aceitar a morte, como um personagem de um filme de Otar Iosseliani onde apenas a morte redime, em uma resignação solitária e definitiva.

Um dia movimentado, mas gratificante. Que os próximos venham com novidades ainda melhores.
Em tempo, gostaria de agradecer a todos os que vieram falar comigo nos dias de festival por conta dos textos da cobertura.
Em breve novas atualizações.

Cobertura 4º “Olhar de Cinema”, dia 2.

Por Alexander Aguiar.

O nome de Jean-Marie Straub é sempre um referencial quando falamos sobre cinema experimental/de vanguarda/chame como quiser. Todavia, seu nome nunca foi reverenciado sozinho, já que sua filmografia mais expressiva sempre foi realizada em uma parceria inseparável com sua esposa Daniele Huillet. Daniele morreu em 2006, ano que coincide com a minha descoberta pelo cinema não-classicista, mas igualmente “clássico” em relação a sua importância.
De lá pra cá, Straub assinou sozinho a realização de diversos filmes em curta-metragem, mas somente no ano passado é que lançou seu primeiro longa sem Huillet. Iniciei o primeiro dia de “maratona de filmes” com o novo longa do francês, “Kommunisten“, que revisita sua obra junto a Danielle, e re-significa questões que discutem a relação do ser humano enquanto sociedade. O filme, que paradoxalmente une enorme verborragia contrastada com silêncios esplendorosos, exige imersão imediata em questões que transitam entre o histórico e o contemporâneo, lançando discussões que associam a descaracterização cultural pós-globalização na Europa com o Holocausto – qual foi mais nocivo à humanidade, qual deles revela maior dificuldade em relação à convivência humana?
Um filme denso, que não necessariamente faz jus aos melhores momentos do uníssono duo “Straub-Huillet”, mas que ao mesmo tempo revela que as inquietações de outrora fazem cada vez mais sentido no mundo contemporâneo. Além de Kommunisten, um curta de Straub também foi apresentado na mesma sessão. Com apenas 3 minutos, “A Guerra da Argélia” questiona a passividade/agressividade de um soldado diante da autoridade e barbárie nos tempos de guerra.
Filmes que dialogam entre si de maneira uniforme, e em seu estilo muito mais severo contrastam com o filme de abertura da noite anterior. A convivência, tão fácil para uns, pode ser tão dura para outros. Em que lado dessa margem vivemos?

Ainda permeado por essas questões, entrei na sessão seguinte para ver o longa filipino “Storm Children, Book 1“, do diretor Lav Diaz. A dilatação do tempo, os enquadramentos fixos em grandes planos gerais e a ausência da palavra revela somente aos poucos a história contada. Crianças que brincam em meio à enchente, sem comunicação verbal, revirando entulho e raramente encontrando “preciosidades” em meio ao lixo: uma bola murcha, uma caixa de isopor, diversões passageiras que logo cessam e voltam a fazer parte do mesmo entulho acumulado na região costeira. Em planos que se repetem, que se completam, em ações repetitivas e monótonas, crianças dividem o espaço com animais, o trânsito e barracos despedaçados, todos permeados por um onipresente sentimento de devastação. Após mais de uma hora de filme, toda essa água proveniente da tempestade dá lugar a algo oposto, um navio encalhado na encosta da praia, sob um sol a pino, onde crianças nadam e se refugiam na sobra da grande embarcação. Dois garotos buscam o nada em meio a uma enorme pilha de lixo, enquanto discretamente ao fundo ouvimos incidentalmente a música de Bob Dylan, que contrapõe as questões vividas pelas crianças: “Quantas estradas um homem deve cruzar antes de ser chamado de ‘homem’, quantos mares uma pomba branca deve cruzar antes de repousar na areia?”, a resposta que segundo Dylan está “soprando com o vento” nunca de fato é revelada no filme. A câmera, até então estritamente observativa, quebra a quarta parede justamente para situar o espectador na história. Em uma conversa com um jovem, o homem por trás da câmera “descobre” junto com o espectador algumas questões que permeiam aquela sociedade: a maior tempestade já vista nos últimos anos dizimou famílias inteiras, arremessou barcos contra as construções e deixou incontáveis crianças órfãs, à mercê da própria sorte, como que abandonadas no universo. O primeiro momento de contraste entre um jovem e um adulto se dá com uma frase sintomática, quando uma mãe questiona o fato da filha estar apresentando dificuldades na escola. Posteriormente, cenas com câmera na mão seguem um garoto pelo vilarejo, quebrando a construção até então rigorosa com os enquadramentos, em movimentos vertiginosos que dão a impressão de que o ambiente ao redor consegue ser extremamente árido (não literalmente) mesmo em meio às constantes enchentes. Ao serem seguidos, os garotos por vezes olham para trás, mirando a câmera, como quem questionam “vocês ainda estão comigo”? No fim das contas, de fato poucos restaram até o fim da sessão. Um contraste em slow-motion revela as grandes incertezas e preocupações momentâneas dos jovens daquela região, que brincam nos navios que há não muito tempo foram responsáveis pela destruição de seus lares e morte de seus familiares. Um filme com questões profundas, mas que em minha opinião poderia ter sido melhor resolvido sem lançar mão de grandes preciosismos, já que planos extremamente impactantes acabam por perder um pouco do sentido quando somados a outros planos não tão expressivos assim, diluindo um pouco do impacto que busca alcançar.

Fotograma de
Fotograma de “Stinking Heaven”, do cineasta norte-americano “Nathan Silver”.

Com a cabeça permeada por essas questões extremamente densas dos filmes anteriores, parti para uma sessão de uma nova janela de exibição, a Mostra Foco, que “aponta para o futuro” exibindo obras de um cineasta promissor, esse ano representado pelo norte-americano Nathan Silver.
Stinking Heaven” foi para mim a grande surpresa do dia – e até então do festival. O filme relata a “queda” de uma comunidade que divide uma casa no interior de Nova Jersey, servindo de abrigo para pessoas que buscam uma nova família e apoio para se manterem sóbrias. A estética de vídeo, bastante peculiar e representativa nos anos 90, bem como a excentricidade de seus personagens que estão sempre cruzando o limiar da tênue linha entre a comédia e a tragédia acabam por revelar um clima de desolação, de um fim certeiro, que não necessariamente irá se concretizar, mas que faz com que o filme siga fluente e cativante. Suas limitações orçamentárias são aproveitadas enquanto linguagem, os cenários são reduzidos, os diálogos e performances em improviso remetem ao “American free cinema”. O debate posterior à sessão seguiu a mesma linha do filme exibido, com Nathan provando estar sempre nesse limiar entre a seriedade e a auto-ironia, o que certamente fez com que eu me sentisse identificado o bastante para tentar adequar a minha programação para os próximos dias na tentativa de conhecer novos filmes do cineasta.

Para finalizar o dia (ufa!), segui para a exibição do último filme de ontem, “Balikbayan #1: Memories of Overdevelopment Redux III“. Com o título que faz referência ao clássico do Cinema Latino (pra não dizer mundial) de Tomás Gutierrez Alea, eu não poderia deixar de manter minhas expectativas em alta.
Seu diretor, Kidlat Tahimik, lenda viva do cinema filipino, é por si só um showman à parte. Presente no saguão principal do Espaço Itaú de Cinema ao longo de todo o dia, o cineasta exibia sua “instalação” que mostra o confronto entre duas Deusas do Ar, uma representando o Cinema Hollywoodiano e a outra representando o Cinema Independente Filipino e “Terceiromundista” (livre tradução do termo utilizado pelo próprio artista em questão).
A expressão “Balikbayan” se refere ao “imigrante que retornou”, e o filme iniciado em 1979 (!) narra a épica saga do primeiro “bom filho que à casa torna”, mesclando a saga do navegador Fernão de Magalhães, descobridor das Filipinas e a de seu escravo, Enrique de Malacca (interpretado pelo próprio diretor) ao longo da primeira volta ao mundo, provando então que a terra era de fato redonda. Misturando história com fantasia, o filme documenta o próprio avanço da tecnologia de realização cinematográfica, afinal, um longa que demorou quase quatro décadas para ser concluído acabou por registrar mesmo que incidentalmente o declínio da bitola e a ascenção do digital. Obcecado pela arte, pela viagem, pela descoberta, Tahimik mistura sua própria vida à vida do personagem histórico, e é uma ode ao próprio cinema filipino e à vida associada ao amor pela arte. Após a sessão, Tahimik “incorporado” por seu personagem fez uma performance inesquecível aos poucos que resistiram até a meia-noite, enaltecendo a realização cinematográfica, a história e a paixão pela descoberta do mundo graças à arte.
Aos interessados, amanhã o cineasta ministra uma MasterClass especial, onde falará sobre sua trajetória pelo cinema mundial.

A programação continua, e amanhã volto para relatar os primeiros filmes da Mostra Competitiva. Até lá.

Cobertura 4º "Olhar de Cinema", dia 1.

Por Alexander Aguiar.

Iniciou na noite passada a quarta edição do “Olhar de Cinema”, Festival Internacional de Curitiba, que traz à capital paranaense mais de 90 filmes de diversos países.  Assim sendo, o festival se consolida de vez como uma das principais atrações culturais da região, e mais do que a busca por uma própria identidade, agora se projeta para o futuro, remando contra a corrente e buscando a expansão mesmo em tempos de crise (entre outros, o Festival perdeu um dos seus principais patrocinadores na presente edição).

A grande sacada do festival, em minha opinião, é justamente essa ousadia por parte da direção executiva do festival – núcleo duro que compõe a Grafo Audiovisual. Acompanho o “Olhar de Cinema” desde sua primeira edição, e confesso que ao ver o anúncio da primeira programação, torci o nariz por conta da pretensão de exibir filmes do mundo todo, uma proposta muito ousada pra um festival que sequer havia mostrado a que veio. Não demorou muito pra perceber que minha visão não só estava equivocada, como essa era justamente a grande sacada. Janelas de exibição como a “Novos Olhares”, que apresenta filmes de diretores em estreia me causaram desde àquela altura uma surpresa muito positiva. Isso sem contar as retrospectivas, por onde passaram mestres como Cassavetes, Kubrick, Carlos Reichenbach e na atual edição exibe filmes do cineasta francês Jacques Tati, reconhecido majoritariamente por seu rigor artístico e estético em filmes como “Meu Tio” e “Playtime”.

Pois então, 10 de Junho de 2015, o grande dia. Exibido em três salas simultâneas, “Rabo de Peixe”, do duo lusitano Joaquim Pinto e Nuno Leonel foi o grande abre-alas da edição. Joaquim e Nuno já haviam exibido na última edição do Festival o longa “E agora? Lembra-me”, premiado como melhor filme da mostra competitiva de 2014. O novo filme, que foi registrado entre os anos de 1999 e 2001 e finalizado somente esse ano aposta no mesmo dispositivo. “Rabo de Peixe” une imagens documentais e é costurado por uma narração em voz over que reflete e dá sentidos distintos ao que é apresentado na tela. O filme conta a história de um grupo de pescadores do vilarejo homônimo, localizado no arquipélago dos Açores. A dupla de diretores, que a princípio se instala na ilha para visitar um amigo pescador, narra nas quase duas horas de filme não só a história daquele vilarejo em si, mas documenta também o processo de integração deles próprios diante daquela tripulação, que dia após dia se une em prol do trabalho para criar algo para além da relação serviçal, mas uma aproximação direta entre a própria essência do ser humano em contato com a natureza, a liberdade, o respeito pelo próximo e pelo espaço ao redor. Sob esse panorama, o longa de certa forma contrasta com outro filme apresentado anos antes no festival, que mesmo não tendo sido contemplado com o prêmio máximo do júri, certamente foi o que mais causou impacto nos espectadores naquela ocasião: “Leviatã”, filme americano também dirigido por uma dupla – Lucien Castaing-Taylor e Verena Paravel, que documenta a relação extremamente violenta imageticamente entre pescadores e um navio-pesqueiro de grande porte.

Cena de
Cena de “Rabo de Peixe”, co-dirigido por Joaquim Pinto e Nuno Leonel

“Rabo de Peixe” é, por sua vez, muito singelo, intimista, e seu discurso imagético se dá muitas vezes por conta da própria relação entre os documentaristas e documentados. É particularmente bastante difícil fazer um filme de homens falando sobre homens sem que ele pareça extremamente patriarcal, mas essa sociedade em geral tem algo por si só que se opõe a essa máxima quase básica: o anseio e respeito pela liberdade. Sua organização é extremamente anárquica, social e cooperativa, e nesse sentido não acaba por revelar uma relação de poder. O que poderia se revelar patriarcal se torna em medida muito mais diluída, fraternal – ou mesmo paternalista.

O dispositivo inicial do filme por vezes chega a incomodar um pouco, em especial os que já viram o supracitado longa anterior de Joaquim, onde Nuno é um dos personagens mais presentes. No entanto, há de se valorizar duas questões que são lançadas diante das reflexões do narrador onisciente diante das imagens de um passado não tão distante: o que havia em comum entre os realizadores e aquela comunidade em si (aonde nem mesmo o idioma português era “retribuído” por locais que se expressavam mais regularmente no dialeto açoriano), e também a consciência do caráter transitório: “estamos aqui, faremos esse filme, logo mais não estaremos aqui… quanto mais haverá uma comunidade como essa nos Açores?”. Questão que jamais é respondida de forma contundente, mas que revela uma preocupação com os grandes mercados de peixe que aos poucos dizimam o ecossistema oceânico, algo completamente intangível à realidade de coexistência entre o mar e essa pequena tripulação que, ao evoluir em condições, obtém um barco de apenas 12 metros de diâmetro. O barco anterior, ainda menor, representava até então a união entre a família dos personagens principais retratados no filme, e a aquisição do novo barco traz diversas consequências a seus capitães: a necessidade de uma nova licença fará com que eles tenham de se aprimorar não só como pescadores, mas fará com que retomem os estudos há muito tempo deixados de lado.

Por fim, o filme é um apanhado de questões retóricas, de reflexões sem conclusões práticas (isso é um elogio, antes que me interpretem mal), e que nos faz pensar sobre o futuro tendo o passado como comparativo. O filme em si é sempre consciente de que essa é uma realidade transitória, de uma sociedade que há muito se organiza de tal forma, mas que está fadada ao ostracismo completo, diante de um turbilhão de novas formas de exploração do trabalho que praticamente atropelam todos à sua volta. Os reflexos dessa globalização estão presentes de forma extremamente singelas, ao pensar no mercado que consome a pescada do grupo, bem como a introdução do Euro no lugar do antigo Escudo Português.

De qualquer forma, acredito que seja um filme que traz consigo todas as qualidades e leveza para iniciar um festival internacional, e que propõe questões a serem refletidas, ao contrário dos cada vez mais comuns “filmes tese”. Que os próximos dias revelem boas novidades.

A programação completa está disponível no site oficial do evento.