Olhar de Cinema – Sem título #4: Apesar dos pesares, na chuva há de cantares

Dir. Carlos Adriano | experimental | 27’ | Brasil

A princípio, confesso que não tive vontade de assistir a esse “Programa de Curtas Exibições Especiais: cinema, memória, elegia, resistência”. No guia de programação, ainda era possível ler “Hitchcok, Chaplin, Kelly/Donen e Straub-Hulliet são evocados em quatro novíssimos curtas-metragens realizados por mestres do cinema contemporâneo”. Pensei que era mistura demais para mim, nomes demais, e pouco para o recorte de cinema brasileiro dessa nossa cobertura.

Então, festivais de cinema têm disso: encontro brevemente o curador Aaron Cutler no intervalo entre uma sessão e outra. Nos cumprimentamos, eu comento da ideia desses textos, ao que ele pergunta “Você conhece Carlos Adriano?”, recomendando fortemente o curta dessa sessão, e eu arrisco. Felizmente!

Convite para novas referências. Não só um, mas quatro filmes, quatro visões de cinema, quatro realizadores e propostas distintas, que de alguma forma nos faz ir adiante. Sem dúvidas o melhor de uma mostra: poder conhecer coisa nova ou revisitar coisas amadas – na tela grande, com grande público. E, dessa vez, com uma conversa antes dos filmes, que dá um pequeno contexto, uma brevíssima porém importante formação a partir da curadoria.

Carlos Adriano elogia o poder que o cinema tem sobre nós: o recortar de trechos de 98 filmes, leituras e releituras da canção “I’m singing in the rain” – e tudo que ela representa em nosso imaginário a respeito do cinema – avança e nos comove. Se hoje sofremos de um excesso de imagens, de informações, de múltiplas janelas nos roubando e disputando a atenção e mesmo a distração, Carlos Adriano nos demonstra um caminho, a partir da paixão, reinventando o cinema, apenas brincando com a edição de todo esse material – processo que afirma ter levado cerca de duas semanas.

Ele arranca suspiros, gargalhadas e estranhamento do público. “Será que aquela cena de chuva, do filme tal, vai aparecer?”… Quando nos damos conta, estamos torcendo, em meio ao cinema assumidamente experimental, tal qual fosse um clássica melodrama. Penso que aquele parente, que conversa com a gente sobre cinema, adoraria assistir a este filme – e isso é um ótimo elogio. Uma memória afetiva de cinéfilo-cineasta que se choca e conversa com a nossa memória afetiva do que é cinema.

Texto revisado por João “TIR” Horst.

Olhar de Cinema – Djon África (abertura)

Djon África – Dir. Filipa Reis e João Miller Guerra | ficção | 96’ | Brasil, Portugal, Cabo Verde

por Vinícius “VINO” Carvalho

Quem é esse que muda o visual diante do espelho, diante da câmera, diante de nós, numa constante reinvenção? Que muda igualmente de nome, conforme a situação. Poderia ser uma busca, no sentido clássico da narrativa, mas esse não é um herói. É de longe que nos relacionamos com ele, e é de longe que ele se relaciona com a cidade, com o espaço ao redor. Paisagens a distância, planos em teleobjetiva, carros passando por entre personagem e câmera, entre personagem e público. O filme passeia pela questão das pautas identitárias, e assim dá o que a meu ver foi a tônica de toda a sétima edição do festival Olhar de Cinema.

O furto na loja de departamentos, falsas pistas na narrativa e nosso pré-conceito, diante do que vai acontecer, se projeta também na tela grande. Num momento em que lugar de fala está tão presente, nos perguntamos quem é que faz o filme, qual é o ponto de vista? E a coprodução entre países, cheia de pessoas brasileiras na equipe, encaixa tanto numa história intercontinental. Do extra filme, há contradições contemporâneas do longa Djon África; dentro do filme, há contradições contemporâneas do personagem Djon África.

Há digressões poéticas na narrativa meio grogue, o que importa menos do que a experiência, o que é comum também neste cinema de hoje. Cenas documentais de imersão, esse hibridismo que foge das etiquetas, e essa atuação de não-atores e artistas do teatro. Tudo fluindo para um personagem que não sabe bem quem é, numa narrativa que não se sabe se é de busca – é com certo acaso que ele busca o pai, é com certo acaso que viaja. Uma identidade incerta, duvidosa, borrada, o mais contemporâneo dos sentimentos, esse não pertencimento, esse não-lugar. Que se mostra na forma com que Djon se apresenta, na forma com que Djon é visto. Africano, pela cor da pele é marginal em Portugal, estrangeiro e turista na África. Pai de si mesmo, como afirma. “Somos todos fugitivos”, nos revela a senhorinha. Em meio às aventuras ou dissabores, cenas e paisagens que nos roubam, Djon está sempre “meio-que-à-deriva”. Aliás, o único momento de ímpeto, em que ele finalmente corre, é justamente quando descobre que será pai, e quem sabe para voltar a Portugal. Ironias.

Ao sair da sessão, sou surpreendido por um colega de trabalho (que sempre vi atrás de um computador executando tarefas burocráticas) empunhando duas doses de ‘grogue’, vindas diretamente de Cabo Verde, com os dizeres DJON ÁFRICA na embalagem de plástico: “…e aí, Vino, prova isso!”. Eis o que é uma ação de marketing.

Fotos cedidas pela produção do filme e por Leticiah Futata. Revisão por João “TIR” Horst.

Olhar de Cinema – Notas de uma Mirada

por Wesley Conrado

Algo importante a ser destacado é que a Mirada Paranaense, (mostra paralela de produções locais dentro do Olhar de Cinema) é um grande sucesso de público. Pais, mães, tios, amigos e conhecidos garantem sessões lotadas com um clima mais íntimo, tem torcida, é divertido.

E justamente por ser esse o critério principal da mostra as programações das sessões são um tanto estranhas. A curadoria pareceu aleatória, tamanha era a disparidade entre as obras. O que não me soou tão bem. Talvez separar documentário de ficção seria uma estratégia mais eficaz e natural.

Euller Miller entre dois mundos – Dir. Fernando Severo | documentário | 76’ | PR

O documentário, dirigido por Fernando Severo, apresenta um retrato social a partir de um rapaz indígena, que passa no vestibular e ganha uma bolsa para estudar Odontologia na UFPR. O choque cultural dentro da universidade e seus desdobramentos, nas tomadas de consciência, de novas realidades em sua vida. O preconceito narrado por aqueles que sentem na pele a exclusão pela classe média branca curitibana. Mas o filme não é sobre ressentimentos, é muito mais sobre as conquistas, os sonhos concretizados às duras penas e também é feito de amor e saudades. O filme abre um panorama social desse projeto de bolsas, apresentando vários personagens e suas histórias de resistência.

No campo estético trata-se de um trabalho claramente construído para televisão. Não que isso seja demérito, mas para o cinema tem muito falatório e uma edição muito rápida no início que me incomodou um pouco. Também achei que o filme não tinha “fôlego” para 76 minutos, com 52 minutos ou 1 hora sairá melhor. São monótonas as explicações de como a bolsa e o projeto funcionam ou algumas falas desinteressantes.

Uma questão fundamental é deixar claro da diversidade dentro da cultura indígena e como eles, principalmente os mais jovens, estão abertos para conhecer o mundo fora de suas aldeias. Ser indígena não é ser um estereótipo, nem a cultura indígena estanque.

Gostei muito de ver Euller Miller arrasando na balada com as amigas ou quando fala que existem indígenas com outras orientações sexuais. Com certeza teve umas revoluções e umas libertações nessa história.

Terreiros – Dir. Felipe Lovo e Mauricio Santos | documentário | 14’ | PR

Sem sombra de dúvida o programa de curtas-metragens da Mirada Paranaense estreou muito mal com esse curta etnográfico feita às coxas. Não entendi o que esse filme fazia dentro da programação do Olhar. Talvez a temática da religião afro e o tema da resistência predominante nos filmes contemporâneos, deve ter sido o único critério em jogo.

O filme não tem um propósito claro. É sobre um terreiro de umbanda? É sobre vários terreiros? É sobre a religião afro? É sobre exu? É sobre a mãe de santo? E quem é aquele cara sentado no chão? Nunca sabemos ao certo. A câmera passeia sem saber para onde olhar. Ainda mais estranho são uns efeitos de tela dividida num estilo publicitário.  

Na hora do debate, após a sessão, descobri que o filme é justamente sobre aquele cara sentado no chão e sua relação com o tema de sua teses de doutorado.

Superfície – Dir. Bernardo Teodorico Costa Souza | experimental | 21’ | PR

Hermético,  pretensioso e com pouca substância. Aquele famoso arroz de festa de todo festival de cinema. Em paralelo a performance do ator principal, vemos planos  macro em detalhe de insetos. Forte é a ideia de criar desconforto no público, um estranhamento abstrato no cenário e no trabalho gestual. Parece que o diretor queria contar uma história alí, mas a forma atrapalhou tudo. O tipo de coisa que eu não gosto e por isso não tenho mais o que dizer. Posso estar sendo injusto.

Lui – Dir. Denise Kelm | ficção | 18’ | PR

Uma singela surpresa na programação depois de dois curtas desinteressantes. Esse desenvolve uma narrativa linear, uma história de amor e conflito entre um homem trans e uma garota. O personagem principal tem densidade dramática, acreditamos de verdade nessa persona encarnada na tela, prova que a técnica e sentimento foram bem depurados. Somente o exagero nos figurinos num estilo new wave/hipster tomou demais a atenção do drama. Denise Kelm se revelou uma boa dramaturga, fiquei curioso para saber o que vem por aí. Belíssimo plano final de um nu frontal na praia.  

Acima da Lei – Dir. Diego Florentino | documentário | 20’ | PR

Documentário feito, a princípio, para internet, foi reeditado e ganhou o Prêmio de Curta-metragem da Mirada Paranaense. Um filme feito na urgência de um importante evento histórico, a defesa do ex-presidente Lula ao inquérito do juiz Sérgio Moro em Curitiba. O filme faz um contraponto, por vezes irônico, entre a polarização ideológica dos petistas x coxinhas. Mas o filme faz questão de deixar bem claro para qual lado ele torce. O plano em que o Lula discursa e chora me pareceu cômico no final das contas. Aquele exagero melodramático que faz tão bem para nossas novelas e aos nossos líderes. Um filme simples e claro, um registro direto do nosso povo e de nossos dias.

Fotos cedidas pela produção dos filmes e por Leticiah Futata. 

UMA CARTA ABERTA AO MINISTRO DA CULTURA – SR. SERGIO SÁ LEITÃO E À SOCIEDADE

ABAIXO-ASSINADO – JUNTOS COM KLEBER MENDONÇA FILHO!

Nota do Facebook: UMA CARTA ABERTA AO MINISTRO DA CULTURA – SR. SERGIO SÁ LEITÃO E À SOCIEDADE.

Recife, 29 de Maio de 2018.

Caro Ministro de Estado da Cultura, Sr. Sergio Sá Leitão

Dirijo-me ao senhor, através da presente Carta Aberta, por acreditar que essa troca tem um sentido democrático. Esse texto também está sendo compartilhado com o público, entidades de classe, a imprensa e profissionais da cultura no Brasil e no exterior. Como cidadão brasileiro, artista e trabalhador da Cultura, ainda vejo o nosso país como uma Democracia e entendo que o Ministério da Cultura tem como missão divulgar, zelar e fomentar nossa produção cultural, além de dialogar com os trabalhadores da Cultura. De forma institucional, o senhor deve nos representar, mesmo que talvez tenhamos ideias distintas sobre temas que nos são caros, como o Cinema, a Cultura e o país.

Foi como cidadão e cineasta que recebi perplexo uma comunicação do seu Ministério, e isso ocorreu por email no dia 29 de março último, durante as 14 semanas de trabalho no meu filme novo, Bacurau, co-dirigido por Juliano Dornelles. Bacurau é uma co-produção franco-brasileira. Estávamos no Sertão do Seridó, no Rio Grande do Norte, quando a comunicação do MinC nos informou que todo o dinheiro do Edital de Baixo Orçamento utilizado na realização de O Som ao Redor, meu primeiro longa metragem, realizado em 2010, teria de ser devolvido.

Desde o fim das filmagens de Bacurau, há duas semanas, e isso inclui uma pesada desprodução, que tentamos agendar uma visita com o senhor para discutir essa questão. Tentamos de várias formas, contato pessoal e marcação de uma agenda oficial, sem sucesso.

A carta por nós recebida do MinC sugere uma punição inédita no Cinema Brasileiro e que nos pareceria mais adequada a produtores que não teriam sequer apresentado um produto finalizado, e isso após algum tempo de diálogo. A carta veio, inclusive, do mesmo Ministério da Cultura que indicou O Som ao Redor para representar o Brasil no Oscar, em 2013.

É de suma importância que esse meu escrito não perca de vista a natureza dessa situação. No Brasil dos últimos tempos, a nossa capacidade de expressar indignação como cidadãos vem sendo diminuída, creio que por dormência.

E é bem aqui onde assumo resignado uma posição habitual demais no nosso país, a de um cidadão que precisa defender-se de acusações injustas. O valor exigido para devolução (com boleto já emitido) na carta do Ministério da Cultura é R$ 2.162.052,68 – Dois Milhões Cento e Sessenta e Dois Mil e Cinquenta e Dois Reais Com Sessenta e Oito Centavos – já corrigidos.

O Som ao Redor custou R$ 1,700,000,00 – Um milhão e setecentos mil reais – no seu processo de produção, nos anos de 2010 e 2011. Em câmbio corrigido do dia de hoje, O Som ao Redor custou 465 mil (quatrocentos e sessenta e cinco mil) dólares. O MinC deveria premiar produtores que fazem tanto e que vão tão longe com orçamento de cinema tão reconhecidamente enxuto.

Os recursos complementares foram captados no âmbito estadual, através do Edital de Audiovisual do Funcultura de 2009 no valor de R$ 410.000,00, sendo que esse valor foi devidamente declarado e autorizado pela ANCINE, após comunicação entre as duas instituições (Ancine e Secretaria do Audiovisual). São informações públicas e declaradas, já há oito anos:

MinC/Edital: Um milhão de reais. — Petrobras: 300 mil reais. (Obs: o prêmio do edital da Petrobras era de 571 mil 805 reais, mas saiba que 271 mil 805 reais foram devolvidos para respeitar o limite definido claramente no edital para verbas federais – de um milhão e 300 mil reais). — Funcultura Pernambuco: 410 mil reais, verba estadual (não federal).

O Som ao Redor é fruto do Concurso de Apoio à Produção de Longas Metragens de Baixo Orçamento 2009. Destaco aqui o trecho do Edital:

“11. DAS VEDAÇÕES

11.1 É expressamente vedada:

(…)
C) O acúmulo do apoio previsto neste Edital com recursos captados através das leis 8.313/91 e 8.685/93, bem como com recursos provenientes de outros programas e/ou apoios concedidos por entes públicos federais, acima do limite de R$ 300.000,00 (trezentos mil reais)”.

Isso parecia entrar em conflito com o item 2.1d acerca da definição de obra cinematográfica de baixo orçamento:

“2.1. Para fins deste Edital, entende-se que:
(…)
d) OBRA CINEMATOGRÁFICA DE LONGA METRAGEM DE BAIXO ORÇAMENTO é aquela obra audiovisual cuja matriz original de captação é uma película com emulsão fotossensível ou matriz de captação digital, cuja destinação e exibição seja prioritariamente e inicialmente o mercado de salas de exibição, cuja duração seja superior a setenta minutos e cujo custo de produção e cópias não ultrapasse o valor de até R$ 1.300.000,00 (um milhão trezentos mil reais);”

Nosso consultor jurídico à época levou à Coordenação de Editais da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura a dúvida sobre recursos não-federais. A SAV afirmou, via email oficial, que a captação de recursos não-federais (no nosso caso, o Funcultura pernambucano) NÃO VIOLARIA os limitadores dispostos no edital de Baixo Orçamento em questão. Essa resposta está documentada (“Sim, o edital só veta recursos federais acima de R$ 300 mil.”). Nós nunca faríamos alteração de orçamento sem o acompanhamento das agências responsáveis, elas próprias regidas por regras internas duras.

Pergunto ao senhor se houve comunicação entre o MinC e a Ancine para tentar esclarecer essa questão institucional que não deveria ser transformada numa punição inadequada para os produtores de um filme exemplar.

Por que a denúncia feita por um funcionário da Ancine encontrou sentido dentro do MinC, mas não na própria Ancine, onde o processo interno não foi adiante?

O MinC também não observou a vedação acima, nem tampouco registra nossa prova de boa fé documentada de termos nos comunicado com a SAV para esclarecer essa questão. Também não observa a maneira correta com a qual tratamos o patrocínio da Petrobras, respeitando o limite claro de um milhão e trezentos mil reais às verbas federais.

A interpretação também nos parece equivocada quando analisada a praxe do processo de captação no setor; a interpretação é absurda ainda por representar verdadeiro enriquecimento injustificado da União (a devolução de todo o valor do edital e com valores corrigidos) em virtude da entrega do filme (reconhecida pela própria AGU em parecer).

Na época, outros filmes dos primeiros editais de Longas Metragens de Baixo Orçamento esclareceram da mesma forma ética a vedação destacada acima, complementando seus orçamentos com recursos estaduais ou municipais. São informações públicas disponíveis também há anos. Vale observar que o edital de Longas de Baixo Orçamento de 2011 viu o seu texto passar por alteração, finalmente vetando de fato qualquer tipo de recurso extra, municipal e/ou estadual.

Caro senhor ministro, preciso ainda registrar que a carta recebida do vosso MinC veio como uma surpresa, especialmente por não termos tido a chance de dialogar com o Ministério. Como artista, o mínimo que espero de um Ministério como o da Cultura é o diálogo, uma troca de informações numa questão importante para todas as partes.

Sou um artista brasileiro num momento extremamente difícil no nosso país, onde têm sido frequentes acusações que tentam criminalizar toda a classe artística, do teatro à literatura, do Cinema à música e às artes plásticas.

Creio que podemos concordar que o resultado final dessa multa absurda para O Som ao Redor, decidida internamente e na esfera administrativa do Ministério da Cultura, irá inviabilizar, de forma grosseiramente burocrática, nosso trabalho como produtores de cinema, um trabalho exemplar sob qualquer análise feita.

Entendo que o senhor, como Ministro, tem a capacidade de compreender a questão aqui colocada, para que a mesma seja discutida administrativamente de maneira construtiva e justa no Ministério da Cultura. Continuaremos prontos para dialogar.

Como fica impactada a produção cultural brasileira atual, com sentimento de vulnerabilidade incompatível com um pensamento democrático, a partir de um incidente como este? Não trata-se de uma questão privada, mas de liberdade de expressão.

Ironicamente, O Som ao Redor é fruto de um olhar para o Brasil com algum senso crítico a partir do Recife, Pernambuco, e surgiu através do mesmo Ministério da Cultura a partir do que na época era uma maneira nova de ver o edital de cinema.

Foi uma conquista e tanto na década passada, quando critérios de cota regional passaram a vigorar, quebrando o molde de um passado onde a representação era exclusiva de produções da região sudeste. Foi assim que eu, realizador pernambucano, do Nordeste, pude fazer esse primeiro longa metragem de ficção.

Penso muito nos filmes que representam o Brasil internacionalmente, nesse ano de 2018. Benzinho, de Gustavo Pizzi, O Processo, de Maria Augusta Ramos, Azougue Nazaré, de Tiago Melo, Los Silencios, de Beatriz Seigner, Diamantino, de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, de Renée Nader Messora e João Salaviza, As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra. Uma lista diversa de filmes que simplesmente não eram feitos dez anos atrás e que hoje representam o Brasil, aqui e fora.

Senhor ministro, a luta ainda está longe de ser encerrada, enquanto mais realizadores negros, indígenas, de produções dirigidas por cineastas mulheres não encontrarem apoio e incentivo como forma de valorizar e promover nesse país a diversidade de gênero e raça de maneira radical e contínua.

Para terminar, O Som ao Redor retrata uma realidade conhecida no Brasil. Trabalhadores da cultura enfrentam as desigualdades regionais, a falta de apoio, a falta de um espaço de visibilidade para as suas obras, os entraves de uma burocracia paralisante, os (mau)humores do mercado cultural, a disputa “Davi e Golias” com produções internacionais milionárias.

São muitas as agruras para contar histórias brasileiras, para falar sobre a nossa memória, ou a falta dela, para fazer brilhar a tradição, ou a quebra dela, enfrentar dilemas de um país dividido pela desigualdade social e pela ação de políticos torpes ao longo de décadas de história. Para poder celebrar a diversidade em todas as suas expressões, é preciso ter alguma coragem, e por sorte, o Brasil tem uma comunidade artística gigantesca.

Para isso, senhor Ministro, seguiremos dignos. Foi por isso que filmei O Som ao Redor, Aquarius e agora Bacurau, com personagens que interagem com o Brasil, mas o fazem entendendo o quanto são dignos.

Grato pela atenção.

Kleber Mendonça Filho, curador de cinema, roteirista, diretor de cinema (Vinil Verde, Recife Frio, Crítico, O Som ao Redor, Aquarius – Filme

Carta Aberta dos Egressos e Egressas Sobre a Situação do Curso de Cinema da UNESPAR

Ao Governo do Estado do Paraná
Vossa Excelência, Senhora Governadora Cida Borghetti
À Reitoria da UNESPAR
Ao Magnífico Reitor Antonio Carlos Aleixo
À Direção da Faculdade de Artes do Paraná
V.S.ª Professora Pierângela Nota Simões

Nós, egressos e egressas do Curso de Bacharelado em Cinema e Audiovisual, viemos por meio desta carta prestar solidariedade ao corpo estudantil e ao CAZÉ – Centro Acadêmico Zé do Caixão, pela coragem em denunciar o estado de descaso em que se encontra o Curso de Bacharelado em Cinema e Audiovisual da UNESPAR – Campus Curitiba II.

Lamentamos muito a situação de deterioração da sede e dos estúdios, decorrentes de problemas estruturais que o ensino superior paranaense passa, além dos problemas conjunturais que acompanham o curso desde o seu início.

Destacamos a importância do curso enquanto centro formador de profissionais e pesquisadores de cinema para o mercado brasileiro, em especial ao mercado paranaense. Os trabalhos e pesquisas realizados por egressos e egressas colocaram o Paraná no mapa das produções nacionais e movimentaram o mercado audiovisual no nosso Estado, com produções de maior qualidade, e que exigem elevado grau de conhecimento técnico e experiência na área.

Ressaltamos, que desde a sua origem o curso foi alvo de polêmicas, antagonismos internos e corporativismos por parte do Colegiado do Curso de Bacharelado em Cinema e Audiovisual e da Direção da FAP que, não só prejudicaram o funcionamento do mesmo, como a vida acadêmica de quem nele estudava. Com a integração do orçamento da CINETVPR (Decreto Estadual nº. 4.968/2005) à FAP – Faculdade de Artes do Paraná e depois à UNESPAR – Universidade Estadual do Paraná, o controle administrativo e financeiro da sua sede e de sua infraestrutura ficou extremamente fragilizado, sendo que as pró-reitorias competentes nunca demonstraram qualquer atenção às necessidades específicas do curso de cinema – sequer realizaram visitas ao local.

As imagens da infraestrutura do galpão e do estúdio alagados, conforme verifica-se no vídeo “UNESPAR CINEMA E AUDIOVISUAL: DESCASO E DESMONTE” – acesso em https://www.youtube.com/watch?v=16KrP23gQR0, demonstram que o descaso vem de anos e anos, até culminar nesta derradeira crise. A deterioração da sede do curso de cinema é um risco para quem trabalha e estuda nesta localidade – além de um grande descaso com o erário público e a sociedade paranaense.

Nos causa muito estranhamento as falas contidas no vídeo, feitas por professores e administradores da UNESPAR, que utilizam de termos inapropriados para exotizar a sede do curso, frases soltas nomeando como ‘magnífica’ a estrutura de cinema, que não existem as funções para o quadro técnico necessário para realizar um concurso no Estado, e outras improbidades que apequenam o problema real com predicados superficiais a respeito da manutenção do próprio localizado em Pinhais, no Parque Newton Freire Maia.

Enfim, falam apenas do prédio e não da precariedade acadêmica e administrativa do Campus Curitiba II, que não aflige apenas o curso de cinema, mas também as demais graduações da Faculdade de Artes do Paraná. Omitem que o bacharelado de cinema e audiovisual é o curso mais disputado no vestibular da UNESPAR, e o que mais consegue dar projeção a esta universidade. Omitem também que as direções da FAP sempre se comportaram de forma omissa ou hostil a esse curso e a sua comunidade acadêmica. O que não é de se estranhar, visto que o curso, para ter qualidade, exige trabalho e dedicação, algo diametralmente oposto ao descaso que testemunhamos.

Cobramos das autoridades responsáveis – Reitoria da UNESPAR, Direção da FAP e Colegiado de Cinema – um posicionamento sobre os problemas de infraestrutura da sede do curso de cinema, além dos demais problemas de ordem acadêmica e administrativa que sempre afligiram os estudantes do curso.

Acreditamos que a Governadora Cida Borghetti tratará do problema com a devida atenção, e deixamos clara a nossa intenção de diálogo e colaboração para pôr fim à crise em que o Curso de Cinema e Audiovisual da UNESPAR se encontra.

O Audiovisual Paranaense precisa que o nosso curso esteja em bom funcionamento!

Curitiba, 10 de maio de 2018.

Obs 01.: os egressos interessados em assinar a carta devem deixar o nome completo e ano de colação de grau nos comentários.
Obs 02.: apoiadores interessados em assinar a carta devem deixar o nome completo e o tipo de relação que tem ou tiveram com o curso nos comentários.

 

Egressos e Egressas

  1. Agnes Cristine Souza Vilseki, formada em 2014
  2. Amanda Moleta, formada em 2014
  3. Antonio Roberto Gonçalves Junior, formado em 2012
  4. Bianca de Moura Pasetto, formada em 2014
  5. Caio de Campos Baú, formado em 2017
  6. Celeste Sanson Moura, formada em 2013
  7. Diego Otniel Florentino, formado em 2012
  8. Frederico Moschen Neto, formado em 2012
  9. Gustavo Barbosa Aires Pinheiro, formado em 2018
  10. Heloisa Aparecida Zaninelli Reitenbach, formada em 2016
  11. Jaqueline M. Souza, formada em 2010
  12. Juliana Maria Fiori, formada em 2014
  13. Leandro Telles da Silva, formado em 2016
  14. Lucas Murari, formado em 2013
  15. Marcos Flávio Hinke, formado em 2010
  16. Marcos João Serafim Neto, formado 2016
  17. Marisa Merlo de Paula, formada em 2013
  18. Patricia Emiko da Cruz Leite, formada em 2012
  19. Renata de Oliveira Corrêa, formada em 2012
  20. Samuel Storti Guerra Jacintho, formado em 2012
  21. Sonia Procópio Cardoso, formada em 2012
  22. Vinicius Gomes de Carvalho, formado em 2018
  23. Taís Pagan de Araújo, formada em 2014
  24. Wesley Conrado, formado em 2016
  25. Weverton Alexander de Aguiar, formado em 2014

Apoiadores e Apoiadoras

  1. Eduardo Alexandre Vieira, estudante do curso
  2. Felipe Drehmer, ex-estudante do curso
  3. Jessica Candal, roteirista
  4. Sérgio Santos Barroso, estudante do curso