Olhar de Cinema – Estamos Todos Aqui

Dir. Chico Santos e Rafael Mellim | ficção | 20’ | Brasil

Um filme de quem tem as mãos sujas, de quem acredita na ação política, um pé no midiativismo, um outro pé no cinema. “Salve, salve, meu nome é Rosa Luz, e ontem minha personagem foi expulsa de casa (…) Meu nome é Rosa, não é Lucas. É Rosa”. Se comentei anteriormente das pautas identitárias, que parecem tomar conta do festival como um todo, aqui as discussões têm um recorte de classe.

Há algo de novidade nisso: as entrevistas documentais, a ficção da narrativa construída coletivamente, num senso de comunidade. O aqui do título não é qualquer lugar. Rosa Luz correndo. Rosa Luz não é qualquer protagonista. A youtuber Rosa do Barraco nos interessa enquanto o que é, enquanto o que representa. Sobretudo o que nos diz! Rosa Luz correndo.

Há uma revolta crescente, que convida à ação, ao levante. Nos revoltamos juntos. Rosa Luz correndo. Em meio aos navios enormes, em meio aos trens enormes. Mesmo na breve conversa no mercadinho, está todo mundo conversando sobre a desocupação. Rosa Luz correndo. Essa câmera colada à pele e ao corpo é companheira, caminha ao lado enquanto as crianças gritam “traveco! traveco! traveco!”, e enquanto Rosa “faz seus corres”, faz seu barraco, busca uma casa própria.

Uma cena à deriva dentro do corpo do filme: toda gente num barco, que passa por debaixo de tudo, da infraestrutura da sociedade, da tal “base da pirâmide”. Por um breve momento, respiramos em meio a esse caos crescente. Os rostos em primeiro plano, entrevistos em meio à luz intermitente, de um sol muito distante. Silhuetas granuladas na escuridão, essas pessoas que ficavam sempre à margem, cada vez mais visíveis, cada vez mais protagonistas.

Rosa correndo, Rosa correndo, Rosa correndo. Há aqui uma urgência, vinda de baixo pra cima, de quem é arrancado de onde já se vive muito mal, pra ficar sem onde morar. Não interessa muito a análise da conjuntura, se foi golpe ou se a culpa é dos patos, se havia corrupção, ou se estamos em ano de eleição. Estamos todos aqui. Não há paciência histórica que dê conta, não há pedagogia, há sangue nos olhos e essa necessidade de aqui, e também de agora. “Adiar é tornar impossível”. E essa forma de pensar e viver coletivamente se dá sobretudo no fazer cinema: e aí, o que deve acontecer? As pessoas respondem, com aquela sabedoria da vida que nos tira o fôlego, os diálogos vão virando palavras de ordem, os pensamentos vão virando ação política. O que acontece no fim? O público também deve responder.

Olhar de Cinema – Baixo Centro

Dir. Ewerton Belico e Samuel Marotta | ficção | 80’ | Brasil

Um atabaque estranhamente anuncia algo por acontecer. E nos avisa que o que vemos e ouvimos fora do pequeno enquadramento também é importante. A noite que nunca acaba. Alguém cruza um cemitério em meio a essa cidade noturna. “Bairros, cidades, estrelas, constelações”, me pego cantando. Baixo Centro é um mar de luzes. “Homens, mulheres, segredos, imperfeições”. É como se o mundo do ritmo diurno, cheio de pressa e movimentação, precisasse desse submundo sombrio para existir. Sabemos desse intercâmbio. Apesar da promessa de ter tudo ao alcance, do mercado ou da conveniência 24h, desse mundo de informações ao nosso alcance. Apesar de nossas tentativas individuais ou plurais de engajamento, de ocupar e transformar o espaço público e nossos relacionamentos de melhor forma, sabemos da  desmobilização, da especulação, da violência, da matança, do apagamento… Disparado o filme que mais mexeu comigo nos últimos tempos – talvez porque encontramos na grande tela o que temos visto demais nas noites e ruas escuras e frias.

Em pequenos momentos de encontros fortuitos, de uma pretensa vida cultural urbana, a esperança se desfaz em karma coletivo. Não há vitória, não há sucesso, não há solução. A cidade nunca pareceu tão grande diante do corpo e da razão, enquanto perambulamos nesse limite, de lá pra cá, num labirinto de planos e contraplanos. Volta e meia nos deparamos com presenças e ausências do além, além do campo, da quarta parede.

O que está à margem aqui é central. O periférico, a exclusão, se mostra numa atmosfera de estranhamento, afinal não acessamos esse submundo em nosso cotidiano, apesar da consciência de que ele existe. Esse estranhamento aumenta a cada longa cena, longas falas sem diálogo, sem olho no olho. Novamente o atabaque, que de alguma forma ecoa na trilha, do rap ao funk, finalmente no ponto de terreiro. Onde foi parar aquela galera que ocupava a rua com cultura? Lá em Belo Horizonte, ou em Curitiba? Tudo desmorona nessa arquitetura do concreto, há sempre um desnível, uma hierarquia entre o que está no alto e o que está no baixo. A cidade de outrora morreu, morreram junto dela, e os eguns estão à solta, nos lembrando disso.

E, assim como o fotógrafo do filme, nos resta registrar tudo isso, quem sabe para um outro momento, em que olharemos para o absurdo dessa situação toda. Então teremos a certeza de que alguém falou a respeito, alguém trouxe isso à tona, teremos memória, teremos Baixo Centro.

Olhar de Cinema – Primavera Secundarista

Dir. Maíra Kaline | documentário | 22’ | Brasil

O curta de Maíra Kaline nos dá o contraponto necessário sobre as ocupações estudantis de 2016. Para além de qualquer limite técnico, o que temos é uma estudante que participa do movimento que filma. Há, portanto, essa consciência crítica a respeito da narrativa da grande mídia, dos movimentos reacionários que respondem à ocupação, e justamente dessa necessidade de contar a história por quem a protagoniza. Interessante vê-lo na sessão “Pequenos Olhares”, num esforço visível de se formar público jovem.

Assista o filme no LIBREFLIX

Quem esteve de fora pode até ter ouvido falar, ou procurado entender, do que se tratava a tal reforma do ensino médio, ou das cerca de 850 escolas ocupadas só no Paraná. Mas só ali, em meio às palavras de ordem, de dentro, é que entendemos e experienciamos de alguma maneira a perseguição e o terror psicológico. Filmar é fazer sentir.

Num momento em que boa parte da sociedade está desmotivada, desorganizada, e que o golpe segue implacável, a juventude demonstra essa resistência apesar das derrotas – afinal, a medida provisória aí está, o congelamento de vinte anos na área de educação. O filme é aquele, possível ser feito no momento. As fontes, imagens e ruídos possíveis de serem registrados. É o que o “calor do momento” pede. E vai além, mostrando inventividade na escolha de materiais de diferentes fontes e dados mais factuais, para a construção dessa outra narrativa. Para uma estreia, mostra um potencial cinema emergente.  Resta aguardar pelos próximos filmes, porque ocupação é a melhor das escolas.

Olhar de Cinema – Diante dos meus olhos

Dir. André Felix | documentário | 81’ | Brasil

Logo nas primeiras imagens, o longa de André nos avisa que não devemos esperar por um documentário musical. Quem busca por isso, quem quer saber mais sobre a banda Os Mamíferos, melhor ouvir o disco ou ler a biografia… Trata-se aqui de cinema. Porque o filme de certa forma desconstrói o gênero, por dentro – afinal temos a banda, os personagens tocando, ensaiando, sua história, mas arrisco dizer que não é sobre nada disso. Afinal, o que significa fazer um filme sobre eles, aqui e agora? Brasil, 2018.

Os caras estão há 45 anos fazendo música no Brasil, influenciaram um bocado de gente, e assim por diante. De alguma maneira, isso está na imagem do que temos de melhor na nossa cultura, do que já foi feito por essas terras, apesar desses dias de hoje. Brasil, 2018. E o filme acontece apesar dos dias de hoje, sobre os dias de hoje. “E o medo é a mensagem”, canta a música desconhecida, que o filme nos faz querer conhecer.

A imagem é portanto muito bem pensada, ela importa. Isso nos marca e está em jogo desde os primeiros planos: um show e o público, a imagem projetada em várias telas dentro de um ônibus de viagem, denunciando que isso é um filme… e finalmente esse registro do real, de uma verdade inscrita na imagem, dialogando e se contrapondo aos arquivos e à estética contemporânea. “Vocês já ouviram falar de vaporwave?”, nos pergunta André durante o debate após o filme, que dialoga com tudo isso.

Há também uma busca por cenas poéticas, por encontrar algum novo significado, nova textura – mesmo agora, depois de dezenas de filmes vistos no festival, a cena mais solta (diria-se livre) da narrativa, de cavalos soltos no mato, fica voltando à minha mente, enquanto escrevo sobre o filme. E não importa o que significam estes planos.

Há uma busca que é nossa, coletiva, pelo que estamos fazendo no mundo a partir do cotidiano. Diante dos meus olhos a vida está passando, e isso é algo grande. Há uma forte preocupação sobre o que significa fazer um filme hoje, o que isso quer dizer ao mundo. Mas apesar de tudo, há as pessoas, há essa sua música, a vida que pulsa no atravessar da rua para se dirigir ao bar. Uma fogueira que nos remete a contemplação, que está presente no filme todo. Há uma atitude afirmativa, mesmo nessa derrota, há um chamado para a a consciência sobre dias difíceis.

Olhar de Cinema – Camocim

Dir. Quentin Delaroche | documentário | 76’ | Brasil, França

Dezenas de bandeiras vermelhas. Nada além da cor vermelha, nem palavras, nem símbolos, nem siglas. Centenas de pessoas vestindo azul. Nada além da cor azul. Grupos inflamados gritando e cantando, e que se inflamam, gritam e cantam ainda mais diante da câmera, combustível para uma atuação posada. Um misto do que poderia ser um carnaval na rua, a comemoração de torcidas organizadas, palanque folclórico-político.

É tudo tão falso. Falso a tal ponto, que começo a duvidar de que isso que vejo seja um falso documentário. Será que as pessoas estão encenando tudo isso? Toda essa campanha absurda é real ou as cenas foram previamente provocadas? Esses diálogos, essas ações, essas cores. Não há discussão alguma sobre programa, sobre os partidos, sobre análises de conjuntura.

Sempre acreditei que política é uma coisa, e politicagem é outra. Conforme assistia ao longa de Quentin, fico em dúvida. No início, quando Mayara e sujeitos que protagonizam o filme partem para a ação, com celulares em punho, há a impressão de que eles tenham uma crítica em relação a tudo isso. Mas apesar do discurso sobre mudança, sobre o poder da juventude, ao longo da narrativa isso tudo parece não fazer mais diferença. São personagens dentro de um ‘esquemão’ clientelista de coronéis. E muito importante nos perguntar: o que o filme faz diante disso? Política ou politicagem?

Em meio a campanha, seus bastidores, o “jogar o jogo”, no ápice, há uma trilha sonora não diegética, planos desacelerados. Até aí, eu não me surpreenderia se alguém dissesse que sim, trata-se de uma ficção construída com essa intenção! Não há debate possível em Camocim, parece não haver debate possível no Brasil polarizado. Somente a sociedade do espetáculo.

Há um corpo estranho nessa unidade vermelho-azul. Jovens descrentes que vestem preto, e se recusam a fazer parte dessa banda podre. Não nos dão um contraponto à velha política, e também não saem muito do clichê: afinal, resta dedilhar ao violão e cantar “Tempo Perdido” do Legião Urbana tomando cerveja no bar?

O filme percebe uma caricatura na cidade de Camocim, e de alguma forma leva essa caricatura adiante. A política num apocalipse apolítico. Será que mais nada acontece por lá durante os quatro anos, além da campanha eleitoral?