Olhar de Cinema – Primavera Secundarista

Dir. Maíra Kaline | documentário | 22’ | Brasil

O curta de Maíra Kaline nos dá o contraponto necessário sobre as ocupações estudantis de 2016. Para além de qualquer limite técnico, o que temos é uma estudante que participa do movimento que filma. Há, portanto, essa consciência crítica a respeito da narrativa da grande mídia, dos movimentos reacionários que respondem à ocupação, e justamente dessa necessidade de contar a história por quem a protagoniza. Interessante vê-lo na sessão “Pequenos Olhares”, num esforço visível de se formar público jovem.

Assista o filme no LIBREFLIX

Quem esteve de fora pode até ter ouvido falar, ou procurado entender, do que se tratava a tal reforma do ensino médio, ou das cerca de 850 escolas ocupadas só no Paraná. Mas só ali, em meio às palavras de ordem, de dentro, é que entendemos e experienciamos de alguma maneira a perseguição e o terror psicológico. Filmar é fazer sentir.

Num momento em que boa parte da sociedade está desmotivada, desorganizada, e que o golpe segue implacável, a juventude demonstra essa resistência apesar das derrotas – afinal, a medida provisória aí está, o congelamento de vinte anos na área de educação. O filme é aquele, possível ser feito no momento. As fontes, imagens e ruídos possíveis de serem registrados. É o que o “calor do momento” pede. E vai além, mostrando inventividade na escolha de materiais de diferentes fontes e dados mais factuais, para a construção dessa outra narrativa. Para uma estreia, mostra um potencial cinema emergente.  Resta aguardar pelos próximos filmes, porque ocupação é a melhor das escolas.

Olhar de Cinema – Diante dos meus olhos

Dir. André Felix | documentário | 81’ | Brasil

Logo nas primeiras imagens, o longa de André nos avisa que não devemos esperar por um documentário musical. Quem busca por isso, quem quer saber mais sobre a banda Os Mamíferos, melhor ouvir o disco ou ler a biografia… Trata-se aqui de cinema. Porque o filme de certa forma desconstrói o gênero, por dentro – afinal temos a banda, os personagens tocando, ensaiando, sua história, mas arrisco dizer que não é sobre nada disso. Afinal, o que significa fazer um filme sobre eles, aqui e agora? Brasil, 2018.

Os caras estão há 45 anos fazendo música no Brasil, influenciaram um bocado de gente, e assim por diante. De alguma maneira, isso está na imagem do que temos de melhor na nossa cultura, do que já foi feito por essas terras, apesar desses dias de hoje. Brasil, 2018. E o filme acontece apesar dos dias de hoje, sobre os dias de hoje. “E o medo é a mensagem”, canta a música desconhecida, que o filme nos faz querer conhecer.

A imagem é portanto muito bem pensada, ela importa. Isso nos marca e está em jogo desde os primeiros planos: um show e o público, a imagem projetada em várias telas dentro de um ônibus de viagem, denunciando que isso é um filme… e finalmente esse registro do real, de uma verdade inscrita na imagem, dialogando e se contrapondo aos arquivos e à estética contemporânea. “Vocês já ouviram falar de vaporwave?”, nos pergunta André durante o debate após o filme, que dialoga com tudo isso.

Há também uma busca por cenas poéticas, por encontrar algum novo significado, nova textura – mesmo agora, depois de dezenas de filmes vistos no festival, a cena mais solta (diria-se livre) da narrativa, de cavalos soltos no mato, fica voltando à minha mente, enquanto escrevo sobre o filme. E não importa o que significam estes planos.

Há uma busca que é nossa, coletiva, pelo que estamos fazendo no mundo a partir do cotidiano. Diante dos meus olhos a vida está passando, e isso é algo grande. Há uma forte preocupação sobre o que significa fazer um filme hoje, o que isso quer dizer ao mundo. Mas apesar de tudo, há as pessoas, há essa sua música, a vida que pulsa no atravessar da rua para se dirigir ao bar. Uma fogueira que nos remete a contemplação, que está presente no filme todo. Há uma atitude afirmativa, mesmo nessa derrota, há um chamado para a a consciência sobre dias difíceis.

Olhar de Cinema – Camocim

Dir. Quentin Delaroche | documentário | 76’ | Brasil, França

Dezenas de bandeiras vermelhas. Nada além da cor vermelha, nem palavras, nem símbolos, nem siglas. Centenas de pessoas vestindo azul. Nada além da cor azul. Grupos inflamados gritando e cantando, e que se inflamam, gritam e cantam ainda mais diante da câmera, combustível para uma atuação posada. Um misto do que poderia ser um carnaval na rua, a comemoração de torcidas organizadas, palanque folclórico-político.

É tudo tão falso. Falso a tal ponto, que começo a duvidar de que isso que vejo seja um falso documentário. Será que as pessoas estão encenando tudo isso? Toda essa campanha absurda é real ou as cenas foram previamente provocadas? Esses diálogos, essas ações, essas cores. Não há discussão alguma sobre programa, sobre os partidos, sobre análises de conjuntura.

Sempre acreditei que política é uma coisa, e politicagem é outra. Conforme assistia ao longa de Quentin, fico em dúvida. No início, quando Mayara e sujeitos que protagonizam o filme partem para a ação, com celulares em punho, há a impressão de que eles tenham uma crítica em relação a tudo isso. Mas apesar do discurso sobre mudança, sobre o poder da juventude, ao longo da narrativa isso tudo parece não fazer mais diferença. São personagens dentro de um ‘esquemão’ clientelista de coronéis. E muito importante nos perguntar: o que o filme faz diante disso? Política ou politicagem?

Em meio a campanha, seus bastidores, o “jogar o jogo”, no ápice, há uma trilha sonora não diegética, planos desacelerados. Até aí, eu não me surpreenderia se alguém dissesse que sim, trata-se de uma ficção construída com essa intenção! Não há debate possível em Camocim, parece não haver debate possível no Brasil polarizado. Somente a sociedade do espetáculo.

Há um corpo estranho nessa unidade vermelho-azul. Jovens descrentes que vestem preto, e se recusam a fazer parte dessa banda podre. Não nos dão um contraponto à velha política, e também não saem muito do clichê: afinal, resta dedilhar ao violão e cantar “Tempo Perdido” do Legião Urbana tomando cerveja no bar?

O filme percebe uma caricatura na cidade de Camocim, e de alguma forma leva essa caricatura adiante. A política num apocalipse apolítico. Será que mais nada acontece por lá durante os quatro anos, além da campanha eleitoral?

Olhar de Cinema – Sem título #4: Apesar dos pesares, na chuva há de cantares

Dir. Carlos Adriano | experimental | 27’ | Brasil

A princípio, confesso que não tive vontade de assistir a esse “Programa de Curtas Exibições Especiais: cinema, memória, elegia, resistência”. No guia de programação, ainda era possível ler “Hitchcok, Chaplin, Kelly/Donen e Straub-Hulliet são evocados em quatro novíssimos curtas-metragens realizados por mestres do cinema contemporâneo”. Pensei que era mistura demais para mim, nomes demais, e pouco para o recorte de cinema brasileiro dessa nossa cobertura.

Então, festivais de cinema têm disso: encontro brevemente o curador Aaron Cutler no intervalo entre uma sessão e outra. Nos cumprimentamos, eu comento da ideia desses textos, ao que ele pergunta “Você conhece Carlos Adriano?”, recomendando fortemente o curta dessa sessão, e eu arrisco. Felizmente!

Convite para novas referências. Não só um, mas quatro filmes, quatro visões de cinema, quatro realizadores e propostas distintas, que de alguma forma nos faz ir adiante. Sem dúvidas o melhor de uma mostra: poder conhecer coisa nova ou revisitar coisas amadas – na tela grande, com grande público. E, dessa vez, com uma conversa antes dos filmes, que dá um pequeno contexto, uma brevíssima porém importante formação a partir da curadoria.

Carlos Adriano elogia o poder que o cinema tem sobre nós: o recortar de trechos de 98 filmes, leituras e releituras da canção “I’m singing in the rain” – e tudo que ela representa em nosso imaginário a respeito do cinema – avança e nos comove. Se hoje sofremos de um excesso de imagens, de informações, de múltiplas janelas nos roubando e disputando a atenção e mesmo a distração, Carlos Adriano nos demonstra um caminho, a partir da paixão, reinventando o cinema, apenas brincando com a edição de todo esse material – processo que afirma ter levado cerca de duas semanas.

Ele arranca suspiros, gargalhadas e estranhamento do público. “Será que aquela cena de chuva, do filme tal, vai aparecer?”… Quando nos damos conta, estamos torcendo, em meio ao cinema assumidamente experimental, tal qual fosse um clássica melodrama. Penso que aquele parente, que conversa com a gente sobre cinema, adoraria assistir a este filme – e isso é um ótimo elogio. Uma memória afetiva de cinéfilo-cineasta que se choca e conversa com a nossa memória afetiva do que é cinema.

Texto revisado por João “TIR” Horst.

Olhar de Cinema – Djon África (abertura)

Djon África – Dir. Filipa Reis e João Miller Guerra | ficção | 96’ | Brasil, Portugal, Cabo Verde

por Vinícius “VINO” Carvalho

Quem é esse que muda o visual diante do espelho, diante da câmera, diante de nós, numa constante reinvenção? Que muda igualmente de nome, conforme a situação. Poderia ser uma busca, no sentido clássico da narrativa, mas esse não é um herói. É de longe que nos relacionamos com ele, e é de longe que ele se relaciona com a cidade, com o espaço ao redor. Paisagens a distância, planos em teleobjetiva, carros passando por entre personagem e câmera, entre personagem e público. O filme passeia pela questão das pautas identitárias, e assim dá o que a meu ver foi a tônica de toda a sétima edição do festival Olhar de Cinema.

O furto na loja de departamentos, falsas pistas na narrativa e nosso pré-conceito, diante do que vai acontecer, se projeta também na tela grande. Num momento em que lugar de fala está tão presente, nos perguntamos quem é que faz o filme, qual é o ponto de vista? E a coprodução entre países, cheia de pessoas brasileiras na equipe, encaixa tanto numa história intercontinental. Do extra filme, há contradições contemporâneas do longa Djon África; dentro do filme, há contradições contemporâneas do personagem Djon África.

Há digressões poéticas na narrativa meio grogue, o que importa menos do que a experiência, o que é comum também neste cinema de hoje. Cenas documentais de imersão, esse hibridismo que foge das etiquetas, e essa atuação de não-atores e artistas do teatro. Tudo fluindo para um personagem que não sabe bem quem é, numa narrativa que não se sabe se é de busca – é com certo acaso que ele busca o pai, é com certo acaso que viaja. Uma identidade incerta, duvidosa, borrada, o mais contemporâneo dos sentimentos, esse não pertencimento, esse não-lugar. Que se mostra na forma com que Djon se apresenta, na forma com que Djon é visto. Africano, pela cor da pele é marginal em Portugal, estrangeiro e turista na África. Pai de si mesmo, como afirma. “Somos todos fugitivos”, nos revela a senhorinha. Em meio às aventuras ou dissabores, cenas e paisagens que nos roubam, Djon está sempre “meio-que-à-deriva”. Aliás, o único momento de ímpeto, em que ele finalmente corre, é justamente quando descobre que será pai, e quem sabe para voltar a Portugal. Ironias.

Ao sair da sessão, sou surpreendido por um colega de trabalho (que sempre vi atrás de um computador executando tarefas burocráticas) empunhando duas doses de ‘grogue’, vindas diretamente de Cabo Verde, com os dizeres DJON ÁFRICA na embalagem de plástico: “…e aí, Vino, prova isso!”. Eis o que é uma ação de marketing.

Fotos cedidas pela produção do filme e por Leticiah Futata. Revisão por João “TIR” Horst.