Cinestésico entrevista: Rafael Mellim e Chico Santos

Chico Santos e Rafael Mellim, fundadores do Coletivo Bodoque, acreditam num cinema transformador. Da interação com moradores de uma ocupação em Santos, surgiu o curta-metragem Estamos Todos Aqui, que recebeu Menção Especial no festival Olhar de Cinema. A partir da exibição do filme, conversamos sobre o que pensam sobre o cinema brasileiro.

Cinestésico: Se puderem começar comentando: de onde veio a ideia do filme?

Rafael Mellim: A ideia do filme nasce quando a gente percebe que é insuficiente e até perigoso debater isoladamente os problemas da nossa classe, muito comum na ideia de pautas identitárias. Entendemos que a pauta LGBT, só pra citar um exemplo, é indissociável da estrutura de classes da sociedade capitalista e de toda a história. Como o capitalismo reincorporou opressões antigas e criou novas? Seria um erro isolar ou esquecer de qualquer opressão, seja racismo, lgbtfobia, machismo, especismo, quando a gente quer falar de capitalismo e vice-versa. A História é a história de todas essas opressões. Daí o perigo de analisar as opressões sem seus contextos históricos e um erro tão grave quanto esquecer ou apagar qualquer uma dessas opressões quando analisamos a sociedade capitalista.

Chico Santos: E o curta é uma mistura de ficção e documentário, que conta a saga de uma jovem, negra, transexual, que está buscando um lugar no mundo e que precisa ocupar os espaços negados a ela. A nossa personagem é expulsa de casa e precisa construir um barraco na luz do dia pra ter onde dormir naquela mesma noite. E a fábula é contada no cenário real que é a Favela da Prainha, que está cravada no Porto de Santos. Esta é a história de muitas mulheres daquele lugar. De muitas das pessoas que vivem naquelas palafitas sobre o mangue, sem saneamento, esgoto, sem nada. Mas a favela está em uma área muito nobre e tá sempre sofrendo ameaças de despejos mal planejados para a expansão da zona portuária, que não levam em consideração as famílias, os vínculos que estão ali. Então nossa personagem, que já é massacrada pela sua identidade de gênero, por sua cor de pele, precisa lutar para conquistar um espaço de terra. Acaba que é um filme dirigido por dois gays e protagonizado por mulheres negras e olha para os corpos marginalizados pensando nas suas potências revolucionárias.

Rafael Mellim: Isso lembra o que a Angela Davis diz que quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela. Ela fala isso e explica que esse processo se dá porque as mulheres negras estão na base da pirâmide social do capitalismo. Então é só imaginar onde estão as mulheres negras trans e travestis: na base da base. Outro ponto é uma coisa muito evidente que acontece na Favela da Prainha que explicita a sociedade dividida em classes. A favela está às margens do maior porto da América Latina. Isso quer dizer que os moradores da Prainha convivem todos os dias com toda a mercadoria cortando seus espaços, em navios e trens que estão lá 24 horas por dia. Também tem muita gente da Prainha que trabalha no porto. A dor nasce nessa contradição, nesse nó: quem produziu essa mercadoria toda está despossuído. A Prainha expressa isso a todo o momento.

Chico Santos A Rosa Luz, que é quem interpreta a adolescente do filme, na vida real tem um canal no Youtube e canta rap, e lá no seu canal ela já falava sobre os mesmo temas que a gente pesquisava, e por isso nos aproximamos. Mas ainda antes disso, é importante dizer que eu e Rafa, enquanto um casal gay, desejávamos falar com as LGBTI. Sabemos que as militantes LGBTI têm tarefas muito difíceis, como a de fazer o debate sobre as execuções das pessoas trans no país que mais mata travesti. E a gente quis se aproximar, pra refletir junto sobre essa nossa condição no capitalismo, nesse “estado de coisas”.

Rafael Mellim: E de alguma maneira responder à própria visão do mercado. Da lógica da mercadoria que coloca as lutas em baias por interesses próprios.

Chico Santos: Desde as jornadas de junho de 2013, que foi quando a gente se juntou pra virar o Coletivo Bodoque, que ouvíamos muito a palavra de ordem “empoderamento”. Depois se transformando em slogan de campanhas publicitárias. Pois então, bora se questionar sobre o que é “poder”, ou, que poder é esse que está contido na palavra empoderamento que estampam por aí? Se queremos poder, é preciso tomar o poder. Certo?

Rafael Mellim: Decidir o rumo da nossa vida na esfera pública também.

Cinestésico: Uma questão: poder popular e empoderamento são coisas antagônicas?

Rafael Mellim: Parece que um está falando mais da vida pública e outro mais da vida privada. Mas se a gente levar à risca, empoderar-se não é decidir sobre a própria vida? Impossível fazer isso só na vida privada, por exemplo, se a gente ainda tiver que vender nossa força de trabalho pra um capitalista.

Cinestésico: Nesse gancho da questão mais política: esta edição do Olhar de Cinema, se pegarmos a programação dos filmes, muitos têm pautas identitárias. Como o filme de vocês mais diretamente, mas o festival no geral. Como vocês vêem isso?

Chico Santos: Me parece inevitável que todos os festivais estejam atentos às desigualdades de gênero e de raça. A luta se fez de baixo pra cima e não teve saída, senão abrir as portas antes que elas fossem derrubadas. Mas isso não quer dizer que temos condições super favoráveis para aprofundar os debates ou colocar eles em perspectiva histórica.

Cinestésico: Seria isso, há essas pautas identitárias, mas falta o debate classista que vocês fazem?

Rafael Mellim: Não acho que a gente é modelo de debate classista nas artes, longe disso. Tem muita gente boa na história que dedicou toda a sua vida tentando criar uma arte que correspondesse às necessidades da nossa classe e do nosso tempo. O Brecht, por exemplo. Fico pensando quantos artistas, os que não são filhos da burguesia, não conseguem pensar sobre isso. Falando só das artes. Porque a grana está na mão dos bancos e grandes empresas. Então são essas corporações que vão dar uma espécie de reforço positivo para esses artistas e também curadores, críticos. Tudo isso em cascata. Assim se cria uma cultura covarde e reacionária, capaz de naturalizar a pior barbárie, como o capitalismo ou sociedades autoritárias no geral. Não é culpa das pessoas mas sim reflexo de como está estruturada a sociedade e como está organizada sua produção no geral. E é muito especial quando artistas e todos os envolvidos na produção e difusão das artes conseguem furar essa bolha, mesmo que momentaneamente. É a luta de classes em curso. Tenho muita curiosidade de saber onde pode chegar a arte se superarmos o capitalismo. Tenho certeza que para debates muito mais avançados, entendíveis e livres, simplesmente porque estaremos livres da espera desse reforço positivo, que nada mais é do que a necessidade de sobrevivência.

Chico Santos: Acho até que quem está na disposição de abordar temas sociais com responsabilidade, na grande maioria, são realizadores que vivenciam as realidades de exclusão. Mas pensar um filme dentro de um propósito, um filme com debate classista, é preciso algumas ferramentas, dominar minimamente alguns conceitos que não te deixam cair no repeteco do cinema nacional que contempla a pobreza como paisagem estática, imutável. E a gente tem dificuldades para se instrumentalizar, porque não somos filhos de banqueiro e o nosso tempo que poderia ser de reflexão e estudo, a gente vende esse tempo por qualquer mixaria pra pagar o aluguel, como qualquer trabalhador. E o cineasta filho de banqueiro é que não vai querer fazer o debate de classes, né? Olha, dá pra dizer que boa parte do que assistimos nos festivais este ano, e aqui no Olhar de Cinema também, tem a vontade de mudança que mostramos no nosso filme. Mas como entender as forças que operam nessa bagunça? Como entender tudo o que sustenta as contradições de uma sociedade dividida em classes se a gente aprende o tempo todo que não é pra falar dessas coisas? Eu e Rafa não estudamos em escola de cinema, nosso caminho é outro. Mas sabemos que isso não é coisa que se aprende nas escolas de cinema. Enfim, a gente sabe que tem uma leva grande de realizadores como a gente, com uma baita disposição de luta, mas que em algum momento podem ser absorvidos pela velha lógica da indústria cinematográfica.

Cinestésico: Questão mais factual, quando foi filmado o curta?

Rafael Mellim: Foi filmado em 2016.

Cinestésico: E quanto tempo depois de filmado ficou pronto?

Rafael Mellim: Um ano depois.

Cinestésico: Nessa questão da forma, no contexto dos filmes brasileiros contemporâneos, a maioria dos filmes têm uma estética mais arrastada, contemplativa. O filme de vocês, em oposição, é um choque. Nessas conversas aqui no Olhar, a gente falou de um certo pessimismo, um luto, e o filme de vocês vai pra um outro lugar. A gente estava conversando, que até 2014 tinha uma certa semântica, tanto na política quanto no que o cinema expressava… Em 2013 isso já entra em crise, e não se vê nenhum filme que tem uma nova chave, e o de vocês parece conseguir.

Rafael Mellim: A gente se deu a tarefa de fazer filmes para serem entendidos por qualquer pessoa, sem precisar ser especialista em decifrar os códigos do cinema. O que a gente faz é pra todo mundo. Temos pensado o quanto a melancolia é um instrumento de poder. Nossa posição sobre isso tem muito a ver com o título do filme.

Chico Santos: Eu e o Rafa viemos do teatro, então nossas referências são de teatro de grupo, de processo colaborativo. Neste curta conseguimos desmontar muito da hierarquia patronal do cinemão. Acho que isso ajudou o curta a ter energia, entende? Porque eram várias mãos, várias cabeças pensando e se conflitando. Acho inclusive que isso ajuda a sair de qualquer possibilidade de ensimesmamento do artista.

Esta entrevista foi realizada por Frederico Neto e Vino Carvalho. Fotos cedidas por Leticiah Futata.

vino
jornalista e cineasta, milita no campo da cultura

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