Cinestésico entrevista: Ewerton Belico

Ewerton Belico trabalha com curadoria no Forum.doc.br e realização cinematográfica na produtora audiovisual Vasto Mundo. É um dos diretores do longa Baixo Centro e nos concedeu a seguinte entrevista, após a exibição de seu filme no Olhar de Cinema. A ideia foi relacionar sua obra e pensamento com a temática do cinema brasileiro.

Cinestésico: O filme Baixo Centro transmite um certo estado de espírito que vivemos nos últimos anos no Brasil. Como foi a origem do filme, da ideia que moveu ele?

Ewerton Belico: O filme é meu e de Samuel, ele já tinha realizado outros filmes anteriormente, em parceria com outras pessoas. Inclusive ele é um dos diretores de um projeto coletivo, o Estado de Sítio, do qual participaram Maurílio, o Andrezera, o Leo Pirata, enfim… Eu diria que Baixo Centro é o fruto de dois encontros: além do encontro meu e de Samuel, um encontro de Samuel com Belo Horizonte, em especial com o centro de Belo Horizonte, que é o momento em que ele se muda pro centro de BH; e o encontro meu com o Aglomerado da Serra, esse conjunto de vilas que fica na região centro-sul de Belo Horizonte. Um dos maiores conjuntos de vilas do Brasil, dezenas de milhares de pessoas, onde eu fui professor de vídeo durante alguns anos. E Baixo Centro tinha muito a ver com uma certa vitalidade cultural e mesmo existencial que a gente via nesses espaços. E também no fato de que Belo Horizonte é uma cidade planejada, onde tudo é feito para convergir para o centro da cidade. Afora os vários aspectos perversos disso, tem um aspecto em especial que é muito interessante: o centro de Belo Horizonte é especialmente povoado, comparado com outras capitais brasileiras. Então essa vitalidade era algo que nos interessava. E o motor inicial do roteiro de Baixo Centro tinha a ver com isso. O processo do filme foi um processo muito longo, e a gente teve a oportunidade de testemunhar essa vitalidade morrendo, sendo massacrada, pela gentrificação, pelos esforços de desocupação do Aglomerado da Serra. Uma das maiores vilas do Aglomerado da Serra, a Vila Cafezal, um terço dele foi demolido num período muito rápido.

Cinestésico: Esse processo longo, você diz quando?

Ewerton: Em 2012 a gente começou a escrever o roteiro, a gente terminou e ganhou um edital em 2014. Dois anos depois. Esse período de dois anos fez com que o filme deixasse de ser um filme de celebração dessa vitalidade, pra virar um filme de fossa, um filme da ressaca, do luto, disso que a gente tinha testemunhado morrer rapidamente durante esse período. Os espaços, alguns deles, não existem tais como, se modificaram bastante. Mas eu diria que a mudança do roteiro, se é pra pensar num contexto mais geral, é uma mudança bastante impactada pelo pós-2013. Num momento em que a repressão às manifestações viram uma repressão no espaço público brasileiro como um todo. Tudo que mobilizava coletivamente as pessoas, porque veio um ímpeto desmobilizador absurdo. De esquerda e de direita. A solução era a desmobilização. Enfim, por exemplo, uma articulação coletiva que foi construída no Aglomerado da Serra e que demorou mais de uma década para ser construída foi destruída em um ano, acabou em um ano. Então, quando eu falo em um filme de luto, eu falo de um filme de luto de uma perda de experiência coletiva. Baixo Centro é um filme sobre o fracasso dessa utopia moderna por excelência que é a cidade, enquanto lugar de experiência coletiva.

Cinestésico: Você falou que foi professor, você foi professor do que?

Ewerton: De oficinas de vídeo. Mais de um projeto de oficinas de vídeo no qual eu trabalhei, e antes disso a gente já tinha uma parceria ali, em especial com a Vila Marçola, em que o Forumdoc realizava uma extensão dele lá no Aglomerado da Serra. Considerando a extensão mais o período que ministrei as oficinas, dá cerca de seis ou sete anos, mais ou menos.

Cinestésico: Em BH o junho de 2013 foi muito violento. E você falou que é um pouco afetado por isso, como isso afetou a vocês e ao filme? Até 2014 haviam filmes com um certo contexto, uma mesma semântica, se pudesse tratar dessas questões. Os filmes respondem ao seu tempo. Se pudesse comentar isso, você falou agora do luto, como vê isso?

Dir. Ewerton Belico e Samuel Marotta | ficção | 80’ | Brasil

Ewerton: Pois é, eu penso um pouco diferente. Se de fato parecia que até meados do governo Dilma, havia um grande consenso que revelou-se falso, era justamente o cinema brasileiro que frequentemente apontava as lacunas desse consenso. Com filmes muito diferentes entre si, o cinema como que profetiza e antecipa o incômodo, e uma rejeição mais geral às instituições políticas brasileiras, e aí podemos pensar em filmes muito diferentes entre si: Corumbiara de Vincent Carelli, Riocorrente de Paulo Sacramento, Brasil S/A do Marcelo Pedroso, Branco Sai Preto Fica do Adirley. Todos esses são filmes do “fora todos!”. O cinema brasileiro daquele momento, o que era mais próximo de um consenso dentro de um cinema independente, que estava trabalhando fora dos grandes orçamentos, era justamente apontar um incômodo diante do que parecia um consenso generalizado. E o que me parece que acontece, é que no pós-2013, e isso se aguça no pós-2016, é que a compreensão política, a autocompreensão que o cinema brasileiro independente começa a fazer de si mesmo passa a ser reenquadrado nos velhos termos da polarização entre PT versus direita. Então a gente pode pensar mesmo em trajetória de diretores, filmes que eram bastante críticos em relação ao nosso status quo político, como por exemplo Futuro Junho, ou Seca, da Maria Augusta, logo em seguida ela faz O Processo. Mesmo Branco Sai… e A Cidade é uma só? São filmes em que a vitalidade da periferia se opõe ao sistema político brasileiro como um todo. O retrato da campanha da Dilma não é nem um pouco favorável, no A Cidade é uma Só?, no Era Uma Vez Brasília, a gente já está vendo que a disputa política se coloca mais uma vez numa polarização mais tradicional pré-2013. Então eu diria que o efeito do 2013 e o 2016, foi justamente fazer o cinema brasileiro retroceder pra uma polarização que o próprio cinema brasileiro vinha apontando como superada. No que diz respeito especificamente ao Baixo Centro, sobre isso: eu acho que essa pulsão mortífera, do Baixo Centro, o agravamento da crise só fez aumentar isso que já estava associado ao filme, esse ímpeto somente se aguçou, se tornou mais claro pra gente. E isso, num filme sobre a morte, é um filme sobre coisas que não existem mais. Eu me lembro de um slogan, de 2016, “não é luto, é luta”. Não, é luto sim. É preciso, o processo freudiano, é preciso desinvestir o desejo do objeto, é preciso entender que o objeto foi perdido. Só é possível sair da repetição perversa com o processo do luto.

Cinestésico: O luto mal resolvido?

Ewerton: O luto mal resolvido é a melancolia. É a repetição perversa da busca do objeto de desejo que foi perdido, é preciso luto sim.

Cinestésico: São coisas que até falamos um pouco, desse mal estar, que nos encontramos, de não ter um certo descanso, embora esteja todo mundo querendo se organizar e se encontrar, a sessão acaba num silêncio… Isso está nas escolhas estéticas? O uso da trilha, a questão das personagens em trânsito, uma topografia do local. E a questão da construção dos personagens casais, de identidade, como se deu essas escolhas?

Ewerton: Desde o projeto inicial havia a ideia de que você formasse casais com pessoas de classes sociais diferentes. E é a manifestação da possibilidade e a impossibilidade dessas relações. Essa vida coletiva que é insinuada no começo do filme, o centro da cidade começa cheio e se esvazia, a cidade começa cheia e ela vai se esvaziando. A manifestação subjetiva dessa impossibilidade é a impossibilidade da continuidade dessas relações. A gente queria sim que tivesse portanto casais de classes sociais diferentes. E a ideia sim, de que as pessoas de classe média, as pessoas ricas, da elite brasileira, fossem mulheres, por alguns motivos: primeiro, porque não nos interessava filmar o mundo dos ricos, nos interessava com o filme devolver o centro da cidade a quem ele de fato pertence, que são as pessoas pobres. Os pobres de Belo Horizonte de fato é que são os donos do centro da cidade. Interessa que o filme devolvesse isso. E interessava que tivesse essa circulação das pessoas. E a gente sabe que seria absolutamente irrealista, num filme que se pretendeu exclusivamente noturno, tentar figurar uma representação com um mínimo de naturalidade, da circulação de mulheres solitárias pelo centro degradado de Belo Horizonte à noite, não era exatamente uma possibilidade. Tanto que a personagem feminina que circula pela cidade, da Luiza, personagem da Bárbara Colen, está neste momento em que o centro está muito lotado, o encontro dela com o Gu, é justamente o ponto de virada pra cidade desertificada. Então essa virada exigia que as personagens mais pobres fossem masculinas, e não femininas. A gente tem um marcador racial muito claro na diferença de classe no Baixo Centro.

Cinestésico: Até pegando esse gancho, de personagens que estão à margem, uma coisa que chama muito atenção, nesse fio condutor, desde a primeira cena tem um atabaque, que não-diegético vai anunciando alguma coisa. A mim sintetiza tudo, a questão que está à margem, como foi isso de colocar esses elementos no filme?

Ewerton: Então, vindo do comentário anterior, esse marcador racial da divisão de classes, que inicialmente, pra ser mais rígido, foi o casting da Babi, que é uma atriz negra de pele clara, mas uma atriz negra, para um personagem da elite brasileira, que fez com que a gente achasse que a gente precisasse criar um inverso simétrico entre os personagens pobres também. Por isso a escolha de um ator branco pra fazer um personagem pobre, que é o Renan. Mas enfim, é claramente racializada a divisão de classes no Baixo Centro, como no Brasil o é. Essa presença era uma coisa que atravessaria o Baixo Centro, isso a gente sempre teve, de diversos modos: desde aquele ponto, que é uma das células de origem do Baixo Centro. Ela mudou de lugar no roteiro, mudou de lugar na montagem, mas aquela presença do ponto sempre existiu. O que insinuava a presença de uma cosmologia afro no filme, que não é literal, não é reencenação de mitos, mas existe no filme como que informado por essa cosmologia afro. Mas uma das cenas que é de origem do filme é o duelo de MCs, a cena que os personagens se beijam no duelo de MCs, sempre quis filmar o duelo, que hoje inclusive não acontece mais. O que acontece, é que muito na raça eles vinham fazendo o duelo à noite, só que na completa ausência de infra estrutura, de apoio, de violência policial, eles decidiram começar a fazer no meio da tarde de domingo, e não tinham como continuar fazendo.

Cinestésico: Uma outra pergunta: o personagem que tira fotos, me remeteu ao fazer filmes, a necessidade de memória, de discutir, tudo isso que você falou, que aparece que a cidade vai se apagando sem a gente poder decidir isso, como foi?

Ewerton: Aquele personagem é inspirado num amigo meu, foi um parceiro de oficina lá, o apelido dele de fato é Djamba, o Reinaldo, que trabalhou no filme, na pesquisa de locação, foi produtor de locação conosco. Ele é de fato fotógrafo, um fotógrafo bastante talentoso. E eu me lembro de uma conhecida que é artista, que ela ia fazer uma residência fora do brasil, e ela estava pedindo materiais familiares, super 8, slides, VHS… E ela falou “quero de várias raças, de várias classes sociais”. E eu falei “você está querendo de gente rica, né? Porque não é exatamente o tipo de dispositivo de lidar com a memória de quem é pobre”, e eu comentei com o Reinaldo disso. E ele falou “Pois é, por isso que estou tirando foto aqui o tempo todo, porque ninguém aqui tem foto, ninguém tem foto de nada”. Então eles derrubam metade da favela, e dois anos depois falam com você que sempre foi daquele jeito, que nunca teve favela ali, porque ninguém tem foto, não tem nada. E esse personagem é um personagem que escuta a voz dos mortos, a foto tem muito a ver com isso, essa coisa do sujeito que lembra o que ninguém mais lembra, aquilo que não pode ser lembrado, aquilo que é programaticamente esquecido.

Esta entrevista foi realizada por Frederico Neto e Vino Carvalho. Foto cedida por Leticiah Futata.

vino
jornalista e cineasta, milita no campo da cultura

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