Olhar de Cinema – Sem título #4: Apesar dos pesares, na chuva há de cantares

Dir. Carlos Adriano | experimental | 27’ | Brasil

A princípio, confesso que não tive vontade de assistir a esse “Programa de Curtas Exibições Especiais: cinema, memória, elegia, resistência”. No guia de programação, ainda era possível ler “Hitchcok, Chaplin, Kelly/Donen e Straub-Hulliet são evocados em quatro novíssimos curtas-metragens realizados por mestres do cinema contemporâneo”. Pensei que era mistura demais para mim, nomes demais, e pouco para o recorte de cinema brasileiro dessa nossa cobertura.

Então, festivais de cinema têm disso: encontro brevemente o curador Aaron Cutler no intervalo entre uma sessão e outra. Nos cumprimentamos, eu comento da ideia desses textos, ao que ele pergunta “Você conhece Carlos Adriano?”, recomendando fortemente o curta dessa sessão, e eu arrisco. Felizmente!

Convite para novas referências. Não só um, mas quatro filmes, quatro visões de cinema, quatro realizadores e propostas distintas, que de alguma forma nos faz ir adiante. Sem dúvidas o melhor de uma mostra: poder conhecer coisa nova ou revisitar coisas amadas – na tela grande, com grande público. E, dessa vez, com uma conversa antes dos filmes, que dá um pequeno contexto, uma brevíssima porém importante formação a partir da curadoria.

Carlos Adriano elogia o poder que o cinema tem sobre nós: o recortar de trechos de 98 filmes, leituras e releituras da canção “I’m singing in the rain” – e tudo que ela representa em nosso imaginário a respeito do cinema – avança e nos comove. Se hoje sofremos de um excesso de imagens, de informações, de múltiplas janelas nos roubando e disputando a atenção e mesmo a distração, Carlos Adriano nos demonstra um caminho, a partir da paixão, reinventando o cinema, apenas brincando com a edição de todo esse material – processo que afirma ter levado cerca de duas semanas.

Ele arranca suspiros, gargalhadas e estranhamento do público. “Será que aquela cena de chuva, do filme tal, vai aparecer?”… Quando nos damos conta, estamos torcendo, em meio ao cinema assumidamente experimental, tal qual fosse um clássica melodrama. Penso que aquele parente, que conversa com a gente sobre cinema, adoraria assistir a este filme – e isso é um ótimo elogio. Uma memória afetiva de cinéfilo-cineasta que se choca e conversa com a nossa memória afetiva do que é cinema.

Texto revisado por João “TIR” Horst.

vino
jornalista e cineasta, milita no campo da cultura

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *