Olhar de Cinema – Diante dos meus olhos

Dir. André Felix | documentário | 81’ | Brasil

Logo nas primeiras imagens, o longa de André nos avisa que não devemos esperar por um documentário musical. Quem busca por isso, quem quer saber mais sobre a banda Os Mamíferos, melhor ouvir o disco ou ler a biografia… Trata-se aqui de cinema. Porque o filme de certa forma desconstrói o gênero, por dentro – afinal temos a banda, os personagens tocando, ensaiando, sua história, mas arrisco dizer que não é sobre nada disso. Afinal, o que significa fazer um filme sobre eles, aqui e agora? Brasil, 2018.

Os caras estão há 45 anos fazendo música no Brasil, influenciaram um bocado de gente, e assim por diante. De alguma maneira, isso está na imagem do que temos de melhor na nossa cultura, do que já foi feito por essas terras, apesar desses dias de hoje. Brasil, 2018. E o filme acontece apesar dos dias de hoje, sobre os dias de hoje. “E o medo é a mensagem”, canta a música desconhecida, que o filme nos faz querer conhecer.

A imagem é portanto muito bem pensada, ela importa. Isso nos marca e está em jogo desde os primeiros planos: um show e o público, a imagem projetada em várias telas dentro de um ônibus de viagem, denunciando que isso é um filme… e finalmente esse registro do real, de uma verdade inscrita na imagem, dialogando e se contrapondo aos arquivos e à estética contemporânea. “Vocês já ouviram falar de vaporwave?”, nos pergunta André durante o debate após o filme, que dialoga com tudo isso.

Há também uma busca por cenas poéticas, por encontrar algum novo significado, nova textura – mesmo agora, depois de dezenas de filmes vistos no festival, a cena mais solta (diria-se livre) da narrativa, de cavalos soltos no mato, fica voltando à minha mente, enquanto escrevo sobre o filme. E não importa o que significam estes planos.

Há uma busca que é nossa, coletiva, pelo que estamos fazendo no mundo a partir do cotidiano. Diante dos meus olhos a vida está passando, e isso é algo grande. Há uma forte preocupação sobre o que significa fazer um filme hoje, o que isso quer dizer ao mundo. Mas apesar de tudo, há as pessoas, há essa sua música, a vida que pulsa no atravessar da rua para se dirigir ao bar. Uma fogueira que nos remete a contemplação, que está presente no filme todo. Há uma atitude afirmativa, mesmo nessa derrota, há um chamado para a a consciência sobre dias difíceis.

vino
jornalista e cineasta, milita no campo da cultura

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