Olhar de Cinema – Notas de uma Mirada

por Wesley Conrado

Algo importante a ser destacado é que a Mirada Paranaense, (mostra paralela de produções locais dentro do Olhar de Cinema) é um grande sucesso de público. Pais, mães, tios, amigos e conhecidos garantem sessões lotadas com um clima mais íntimo, tem torcida, é divertido.

E justamente por ser esse o critério principal da mostra as programações das sessões são um tanto estranhas. A curadoria pareceu aleatória, tamanha era a disparidade entre as obras. O que não me soou tão bem. Talvez separar documentário de ficção seria uma estratégia mais eficaz e natural.

Euller Miller entre dois mundos – Dir. Fernando Severo | documentário | 76’ | PR

O documentário, dirigido por Fernando Severo, apresenta um retrato social a partir de um rapaz indígena, que passa no vestibular e ganha uma bolsa para estudar Odontologia na UFPR. O choque cultural dentro da universidade e seus desdobramentos, nas tomadas de consciência, de novas realidades em sua vida. O preconceito narrado por aqueles que sentem na pele a exclusão pela classe média branca curitibana. Mas o filme não é sobre ressentimentos, é muito mais sobre as conquistas, os sonhos concretizados às duras penas e também é feito de amor e saudades. O filme abre um panorama social desse projeto de bolsas, apresentando vários personagens e suas histórias de resistência.

No campo estético trata-se de um trabalho claramente construído para televisão. Não que isso seja demérito, mas para o cinema tem muito falatório e uma edição muito rápida no início que me incomodou um pouco. Também achei que o filme não tinha “fôlego” para 76 minutos, com 52 minutos ou 1 hora sairá melhor. São monótonas as explicações de como a bolsa e o projeto funcionam ou algumas falas desinteressantes.

Uma questão fundamental é deixar claro da diversidade dentro da cultura indígena e como eles, principalmente os mais jovens, estão abertos para conhecer o mundo fora de suas aldeias. Ser indígena não é ser um estereótipo, nem a cultura indígena estanque.

Gostei muito de ver Euller Miller arrasando na balada com as amigas ou quando fala que existem indígenas com outras orientações sexuais. Com certeza teve umas revoluções e umas libertações nessa história.

Terreiros – Dir. Felipe Lovo e Mauricio Santos | documentário | 14’ | PR

Sem sombra de dúvida o programa de curtas-metragens da Mirada Paranaense estreou muito mal com esse curta etnográfico feita às coxas. Não entendi o que esse filme fazia dentro da programação do Olhar. Talvez a temática da religião afro e o tema da resistência predominante nos filmes contemporâneos, deve ter sido o único critério em jogo.

O filme não tem um propósito claro. É sobre um terreiro de umbanda? É sobre vários terreiros? É sobre a religião afro? É sobre exu? É sobre a mãe de santo? E quem é aquele cara sentado no chão? Nunca sabemos ao certo. A câmera passeia sem saber para onde olhar. Ainda mais estranho são uns efeitos de tela dividida num estilo publicitário.  

Na hora do debate, após a sessão, descobri que o filme é justamente sobre aquele cara sentado no chão e sua relação com o tema de sua teses de doutorado.

Superfície – Dir. Bernardo Teodorico Costa Souza | experimental | 21’ | PR

Hermético,  pretensioso e com pouca substância. Aquele famoso arroz de festa de todo festival de cinema. Em paralelo a performance do ator principal, vemos planos  macro em detalhe de insetos. Forte é a ideia de criar desconforto no público, um estranhamento abstrato no cenário e no trabalho gestual. Parece que o diretor queria contar uma história alí, mas a forma atrapalhou tudo. O tipo de coisa que eu não gosto e por isso não tenho mais o que dizer. Posso estar sendo injusto.

Lui – Dir. Denise Kelm | ficção | 18’ | PR

Uma singela surpresa na programação depois de dois curtas desinteressantes. Esse desenvolve uma narrativa linear, uma história de amor e conflito entre um homem trans e uma garota. O personagem principal tem densidade dramática, acreditamos de verdade nessa persona encarnada na tela, prova que a técnica e sentimento foram bem depurados. Somente o exagero nos figurinos num estilo new wave/hipster tomou demais a atenção do drama. Denise Kelm se revelou uma boa dramaturga, fiquei curioso para saber o que vem por aí. Belíssimo plano final de um nu frontal na praia.  

Acima da Lei – Dir. Diego Florentino | documentário | 20’ | PR

Documentário feito, a princípio, para internet, foi reeditado e ganhou o Prêmio de Curta-metragem da Mirada Paranaense. Um filme feito na urgência de um importante evento histórico, a defesa do ex-presidente Lula ao inquérito do juiz Sérgio Moro em Curitiba. O filme faz um contraponto, por vezes irônico, entre a polarização ideológica dos petistas x coxinhas. Mas o filme faz questão de deixar bem claro para qual lado ele torce. O plano em que o Lula discursa e chora me pareceu cômico no final das contas. Aquele exagero melodramático que faz tão bem para nossas novelas e aos nossos líderes. Um filme simples e claro, um registro direto do nosso povo e de nossos dias.

Fotos cedidas pela produção dos filmes e por Leticiah Futata. 

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