Cobertura 4º "Olhar de Cinema", dia 3.

Por Alexander Aguiar.

Quando ainda estava na faculdade, tive acesso à filmografia do cineasta Evaldo Mocarzel, que em suas aulas reproduzia diversos discursos a respeito do fazer e do pensar cinema. Um de seus filmes, que homenageia a Mostra de São Paulo, propõe um questionamento a diversos cineastas, que por mais que pareça premissa básica de toda a realização fílmica, por vezes parece ser deixada de lado: “Filosoficamente, o que é o Cinema?”. Poucas vezes na vida tive acesso a uma resposta tão subjetivamente intensa quanto a que o filme que abriu a programação do terceiro dia propôs. “João Bénard da Costa – Outros amarão as coisas que eu amei“, dirigido por Manuel Mozos, é mais do que um ensaio poético sobre as memórias e reflexões do crítico português, é mais do que uma declaração de amor ao cinema, e muito mais do que pensar sobre a função do tempo, da memória e o medo e o prazer causados pelo desconhecido. É, antes de tudo, uma grande homenagem ao próprio ato de olhar, de observar o mundo ao redor e assim ser capaz de transformar a própria vida através da arte. Com releituras de filmes clássicos como “Johnny Guitar”, de Nicholas Ray (filme que integra a programação do festival na janela dedicada à exibição de clássicos), “A Palavra” de Carl Dreyer, entre outros, o filme de Mozos relaciona a vida, o amor e a esperança sob o prisma de João Bénard, que como poucos amou o cinema. Um dos trechos do filme discorre magistralmente sobre a cinefilia, afirmando que não basta somente assistir e gostar, a verdadeira função da cinefilia é tentar prorrogar ao máximo a sensação que um filme é capaz de nos fazer sentir, e isso se dá também através do ato de debater, de discutir o cinema, de escrever a respeito. De algum modo, o próprio ato de escrever sobre esse filme me faz pensar em coisas sobre o cinema associado à vida que dura muito mais do que a curta duração do filme, cerca de 70 minutos. Até então, a mais grata surpresa da programação, na opinião de muitos que aplaudiram e saíram da sessão dispostos a vivenciar o cinema de maneira muito mais intensa do que através do simples ato de assistir. Por outro aspecto, como é possível escrever sobre um filme sem que esse se prenda necessariamente à necessidade de assisti-lo?

"João Bénard da Costa: Outros amarão as coisas que eu amei", o grande destaque do festival até então.
“João Bénard da Costa: Outros amarão as coisas que eu amei”, o grande destaque do festival até então.

Na sequência, se iniciava uma programação com diversos filmes da Mostra Competitiva. “Koza“, filme dirigido por Ivan Ostrochovský, é por si só um retrato velado de seus países de produção: a Eslováquia e a República Tcheca. A Tchecoslováquia, outrora potência no cenário desportivo mundial, após divisão pacífica de seus países, vive à margem. Koza é um boxeador que teve sua grande glória nas Olimpíadas de Atlanta, em 96, e anos depois se depara com uma luta muito mais intimista e intensa: sua mulher está grávida novamente e não está disposta a prosseguir com a gestação. Sem dinheiro, ele tenta voltar a lutar, mas não é nem de longe o atleta do passado (presumindo que para que ele tenha sido capaz de competir em uma Olimpíada, ele provavelmente aguentava lutar por mais de um round sem sofrer sérias consequências). O filme em si não revela nada de novo, seus dispositivos são convencionais e seus personagens arquetípicos: o herói decadente, o mentor crápula que aos poucos “amolece”, o bêbado cômico, e por aí vai. No entanto, há cenas de qualidades notáveis, especialmente quando se refere justamente ao esporte. As cenas de boxe são, sem sombra de dúvidas, o grande atrativo do filme. Filmadas em planos abertos, conseguimos sentir o cansaço do pugilista que apanha não só de seus oponentes, mas de sua própria decadência. E ainda melhor: o principal momento de luta do filme não é visto, apenas ouvido, enquanto a câmera mostra o nervosismo de seu amigo/mentor que sabe que a última luta de Koza não pode acabar em boa coisa. Sua tensão, somada ao som crescendo da reação do público, cria no espectador um terceiro sentido, que nos coloca sob o prisma de justamente quem não está em cena.

Uma das medidas que adotei para esse festival, foi tentar assistir todos os filmes sem saber absolutamente nada sobre eles. Sem sinopses, nem trailers, nem a busca pela associação de trabalhos anteriores dos diretores, e isso às vezes nos reserva gratas surpresas. O filme que assisti na sequência, “I am the People“, é um grande retrato da reação do assim chamado “povo comum” do Egito durante a Primavera Árabe, com a queda de Mubarak. Filmado através da lente de Anna Roussillon, que também é um personagem ativo dentro de sua própria narrativa documental, o longa consegue capturar momentos incríveis e extremamente humanos. Sempre tratada com um distanciamento por conta de sua condição de imigrante – a diretora vive na França -, Anna tem como grande trunfo de sua obra diálogos com pessoas que a rodeiam naquela comunidade rural do Egito. Ao acompanhar de perto uma família, a diretora é capaz de documentar a formação e transformação política de seus entrevistados. Relutantes, reacionários, pró-revolução e posteriormente inconformados com os rumos que seguiram as eleições no país, o que gera uma nova onda de protestos, seus personagens carregam consigo questionamentos e contradições que revelam de forma simples mas direta como a situação econômica da nação afeta até mesmo quem vive afastado dos grandes centros. A escassez e os aumentos constantes no preço do gás são um microcosmo de todas as dificuldades vividas por países em desenvolvimento. O que difere a democracia do outrora chamado “terceiro mundo” da democracia francesa, estruturada desde a Idade Moderna até a Contemporânea? Questões que nos fazem pensar sobre os rumos que as revoluções recentes no “mundo árabe” devem continuar a traçar até que as demandas populares estejam de acordo com seu regimento sócio-político.
Nos últimos anos, diversos filmes sobre protestos pipocaram ao redor do mundo, revelando a crise política e econômica do zeitgeist da globalização, no entanto poucos tem o poder de nos tocar como “I am the People”, e a razão é basicamente simples: ao não tentar abranger o conflito pelo topo, mas sim pelo prisma familiar, a realizadora é capaz de atingir ao espectador como poucos.

Para finalizar o dia, segui para a sessão de “Story of Judas“, que a rigor não propunha nenhuma nova discussão estética ou temática, mas uma versão alternativa à tradicional história bíblica, uma espécie de “Evangelho Segundo Judas”, onde este seria o apóstolo mais devoto da palavra de Jesus de Nazaré. A proposta não é necessariamente nova, mas é sempre intrigante ver adaptações do evangelho sob diferentes prismas culturais, nesse caso todo a partir de um ponto de vista francês, sob a direção de Rabah Ameur-Zaï-Meche. Outras adaptações culturais sobre o tema também são expressivas, como a adaptação do clássico da literatura russa “Mestre e Margarida”, ou mesmo as mais recentes com Mel Gibson e assemelhados. Todavia, as imagens do longa são belíssimas, com planos bem enquadrados e encenados, com destaque para a cena do pesar de Carabás após a crucificação de Cristo, em um cenário árido à Kiarostami, com (pasmem!) uma utilização de muito bom gosto de um zoom óptico, coisa rara de se ver em cinematografias contemporâneas. Judas, que jamais teria sido um traidor, é condenado pela história graças ao escriba, com quem ele cria uma desavença após queimar seus manuscritos contando a história de Jesus de Nazaré. Após a morte de Cristo, a Judas só resta lamentar e aceitar a morte, como um personagem de um filme de Otar Iosseliani onde apenas a morte redime, em uma resignação solitária e definitiva.

Um dia movimentado, mas gratificante. Que os próximos venham com novidades ainda melhores.
Em tempo, gostaria de agradecer a todos os que vieram falar comigo nos dias de festival por conta dos textos da cobertura.
Em breve novas atualizações.

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