Cobertura 4º “Olhar de Cinema”, dia 2.

Por Alexander Aguiar.

O nome de Jean-Marie Straub é sempre um referencial quando falamos sobre cinema experimental/de vanguarda/chame como quiser. Todavia, seu nome nunca foi reverenciado sozinho, já que sua filmografia mais expressiva sempre foi realizada em uma parceria inseparável com sua esposa Daniele Huillet. Daniele morreu em 2006, ano que coincide com a minha descoberta pelo cinema não-classicista, mas igualmente “clássico” em relação a sua importância.
De lá pra cá, Straub assinou sozinho a realização de diversos filmes em curta-metragem, mas somente no ano passado é que lançou seu primeiro longa sem Huillet. Iniciei o primeiro dia de “maratona de filmes” com o novo longa do francês, “Kommunisten“, que revisita sua obra junto a Danielle, e re-significa questões que discutem a relação do ser humano enquanto sociedade. O filme, que paradoxalmente une enorme verborragia contrastada com silêncios esplendorosos, exige imersão imediata em questões que transitam entre o histórico e o contemporâneo, lançando discussões que associam a descaracterização cultural pós-globalização na Europa com o Holocausto – qual foi mais nocivo à humanidade, qual deles revela maior dificuldade em relação à convivência humana?
Um filme denso, que não necessariamente faz jus aos melhores momentos do uníssono duo “Straub-Huillet”, mas que ao mesmo tempo revela que as inquietações de outrora fazem cada vez mais sentido no mundo contemporâneo. Além de Kommunisten, um curta de Straub também foi apresentado na mesma sessão. Com apenas 3 minutos, “A Guerra da Argélia” questiona a passividade/agressividade de um soldado diante da autoridade e barbárie nos tempos de guerra.
Filmes que dialogam entre si de maneira uniforme, e em seu estilo muito mais severo contrastam com o filme de abertura da noite anterior. A convivência, tão fácil para uns, pode ser tão dura para outros. Em que lado dessa margem vivemos?

Ainda permeado por essas questões, entrei na sessão seguinte para ver o longa filipino “Storm Children, Book 1“, do diretor Lav Diaz. A dilatação do tempo, os enquadramentos fixos em grandes planos gerais e a ausência da palavra revela somente aos poucos a história contada. Crianças que brincam em meio à enchente, sem comunicação verbal, revirando entulho e raramente encontrando “preciosidades” em meio ao lixo: uma bola murcha, uma caixa de isopor, diversões passageiras que logo cessam e voltam a fazer parte do mesmo entulho acumulado na região costeira. Em planos que se repetem, que se completam, em ações repetitivas e monótonas, crianças dividem o espaço com animais, o trânsito e barracos despedaçados, todos permeados por um onipresente sentimento de devastação. Após mais de uma hora de filme, toda essa água proveniente da tempestade dá lugar a algo oposto, um navio encalhado na encosta da praia, sob um sol a pino, onde crianças nadam e se refugiam na sobra da grande embarcação. Dois garotos buscam o nada em meio a uma enorme pilha de lixo, enquanto discretamente ao fundo ouvimos incidentalmente a música de Bob Dylan, que contrapõe as questões vividas pelas crianças: “Quantas estradas um homem deve cruzar antes de ser chamado de ‘homem’, quantos mares uma pomba branca deve cruzar antes de repousar na areia?”, a resposta que segundo Dylan está “soprando com o vento” nunca de fato é revelada no filme. A câmera, até então estritamente observativa, quebra a quarta parede justamente para situar o espectador na história. Em uma conversa com um jovem, o homem por trás da câmera “descobre” junto com o espectador algumas questões que permeiam aquela sociedade: a maior tempestade já vista nos últimos anos dizimou famílias inteiras, arremessou barcos contra as construções e deixou incontáveis crianças órfãs, à mercê da própria sorte, como que abandonadas no universo. O primeiro momento de contraste entre um jovem e um adulto se dá com uma frase sintomática, quando uma mãe questiona o fato da filha estar apresentando dificuldades na escola. Posteriormente, cenas com câmera na mão seguem um garoto pelo vilarejo, quebrando a construção até então rigorosa com os enquadramentos, em movimentos vertiginosos que dão a impressão de que o ambiente ao redor consegue ser extremamente árido (não literalmente) mesmo em meio às constantes enchentes. Ao serem seguidos, os garotos por vezes olham para trás, mirando a câmera, como quem questionam “vocês ainda estão comigo”? No fim das contas, de fato poucos restaram até o fim da sessão. Um contraste em slow-motion revela as grandes incertezas e preocupações momentâneas dos jovens daquela região, que brincam nos navios que há não muito tempo foram responsáveis pela destruição de seus lares e morte de seus familiares. Um filme com questões profundas, mas que em minha opinião poderia ter sido melhor resolvido sem lançar mão de grandes preciosismos, já que planos extremamente impactantes acabam por perder um pouco do sentido quando somados a outros planos não tão expressivos assim, diluindo um pouco do impacto que busca alcançar.

Fotograma de
Fotograma de “Stinking Heaven”, do cineasta norte-americano “Nathan Silver”.

Com a cabeça permeada por essas questões extremamente densas dos filmes anteriores, parti para uma sessão de uma nova janela de exibição, a Mostra Foco, que “aponta para o futuro” exibindo obras de um cineasta promissor, esse ano representado pelo norte-americano Nathan Silver.
Stinking Heaven” foi para mim a grande surpresa do dia – e até então do festival. O filme relata a “queda” de uma comunidade que divide uma casa no interior de Nova Jersey, servindo de abrigo para pessoas que buscam uma nova família e apoio para se manterem sóbrias. A estética de vídeo, bastante peculiar e representativa nos anos 90, bem como a excentricidade de seus personagens que estão sempre cruzando o limiar da tênue linha entre a comédia e a tragédia acabam por revelar um clima de desolação, de um fim certeiro, que não necessariamente irá se concretizar, mas que faz com que o filme siga fluente e cativante. Suas limitações orçamentárias são aproveitadas enquanto linguagem, os cenários são reduzidos, os diálogos e performances em improviso remetem ao “American free cinema”. O debate posterior à sessão seguiu a mesma linha do filme exibido, com Nathan provando estar sempre nesse limiar entre a seriedade e a auto-ironia, o que certamente fez com que eu me sentisse identificado o bastante para tentar adequar a minha programação para os próximos dias na tentativa de conhecer novos filmes do cineasta.

Para finalizar o dia (ufa!), segui para a exibição do último filme de ontem, “Balikbayan #1: Memories of Overdevelopment Redux III“. Com o título que faz referência ao clássico do Cinema Latino (pra não dizer mundial) de Tomás Gutierrez Alea, eu não poderia deixar de manter minhas expectativas em alta.
Seu diretor, Kidlat Tahimik, lenda viva do cinema filipino, é por si só um showman à parte. Presente no saguão principal do Espaço Itaú de Cinema ao longo de todo o dia, o cineasta exibia sua “instalação” que mostra o confronto entre duas Deusas do Ar, uma representando o Cinema Hollywoodiano e a outra representando o Cinema Independente Filipino e “Terceiromundista” (livre tradução do termo utilizado pelo próprio artista em questão).
A expressão “Balikbayan” se refere ao “imigrante que retornou”, e o filme iniciado em 1979 (!) narra a épica saga do primeiro “bom filho que à casa torna”, mesclando a saga do navegador Fernão de Magalhães, descobridor das Filipinas e a de seu escravo, Enrique de Malacca (interpretado pelo próprio diretor) ao longo da primeira volta ao mundo, provando então que a terra era de fato redonda. Misturando história com fantasia, o filme documenta o próprio avanço da tecnologia de realização cinematográfica, afinal, um longa que demorou quase quatro décadas para ser concluído acabou por registrar mesmo que incidentalmente o declínio da bitola e a ascenção do digital. Obcecado pela arte, pela viagem, pela descoberta, Tahimik mistura sua própria vida à vida do personagem histórico, e é uma ode ao próprio cinema filipino e à vida associada ao amor pela arte. Após a sessão, Tahimik “incorporado” por seu personagem fez uma performance inesquecível aos poucos que resistiram até a meia-noite, enaltecendo a realização cinematográfica, a história e a paixão pela descoberta do mundo graças à arte.
Aos interessados, amanhã o cineasta ministra uma MasterClass especial, onde falará sobre sua trajetória pelo cinema mundial.

A programação continua, e amanhã volto para relatar os primeiros filmes da Mostra Competitiva. Até lá.

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