Cobertura 4º "Olhar de Cinema", dia 1.

Por Alexander Aguiar.

Iniciou na noite passada a quarta edição do “Olhar de Cinema”, Festival Internacional de Curitiba, que traz à capital paranaense mais de 90 filmes de diversos países.  Assim sendo, o festival se consolida de vez como uma das principais atrações culturais da região, e mais do que a busca por uma própria identidade, agora se projeta para o futuro, remando contra a corrente e buscando a expansão mesmo em tempos de crise (entre outros, o Festival perdeu um dos seus principais patrocinadores na presente edição).

A grande sacada do festival, em minha opinião, é justamente essa ousadia por parte da direção executiva do festival – núcleo duro que compõe a Grafo Audiovisual. Acompanho o “Olhar de Cinema” desde sua primeira edição, e confesso que ao ver o anúncio da primeira programação, torci o nariz por conta da pretensão de exibir filmes do mundo todo, uma proposta muito ousada pra um festival que sequer havia mostrado a que veio. Não demorou muito pra perceber que minha visão não só estava equivocada, como essa era justamente a grande sacada. Janelas de exibição como a “Novos Olhares”, que apresenta filmes de diretores em estreia me causaram desde àquela altura uma surpresa muito positiva. Isso sem contar as retrospectivas, por onde passaram mestres como Cassavetes, Kubrick, Carlos Reichenbach e na atual edição exibe filmes do cineasta francês Jacques Tati, reconhecido majoritariamente por seu rigor artístico e estético em filmes como “Meu Tio” e “Playtime”.

Pois então, 10 de Junho de 2015, o grande dia. Exibido em três salas simultâneas, “Rabo de Peixe”, do duo lusitano Joaquim Pinto e Nuno Leonel foi o grande abre-alas da edição. Joaquim e Nuno já haviam exibido na última edição do Festival o longa “E agora? Lembra-me”, premiado como melhor filme da mostra competitiva de 2014. O novo filme, que foi registrado entre os anos de 1999 e 2001 e finalizado somente esse ano aposta no mesmo dispositivo. “Rabo de Peixe” une imagens documentais e é costurado por uma narração em voz over que reflete e dá sentidos distintos ao que é apresentado na tela. O filme conta a história de um grupo de pescadores do vilarejo homônimo, localizado no arquipélago dos Açores. A dupla de diretores, que a princípio se instala na ilha para visitar um amigo pescador, narra nas quase duas horas de filme não só a história daquele vilarejo em si, mas documenta também o processo de integração deles próprios diante daquela tripulação, que dia após dia se une em prol do trabalho para criar algo para além da relação serviçal, mas uma aproximação direta entre a própria essência do ser humano em contato com a natureza, a liberdade, o respeito pelo próximo e pelo espaço ao redor. Sob esse panorama, o longa de certa forma contrasta com outro filme apresentado anos antes no festival, que mesmo não tendo sido contemplado com o prêmio máximo do júri, certamente foi o que mais causou impacto nos espectadores naquela ocasião: “Leviatã”, filme americano também dirigido por uma dupla – Lucien Castaing-Taylor e Verena Paravel, que documenta a relação extremamente violenta imageticamente entre pescadores e um navio-pesqueiro de grande porte.

Cena de
Cena de “Rabo de Peixe”, co-dirigido por Joaquim Pinto e Nuno Leonel

“Rabo de Peixe” é, por sua vez, muito singelo, intimista, e seu discurso imagético se dá muitas vezes por conta da própria relação entre os documentaristas e documentados. É particularmente bastante difícil fazer um filme de homens falando sobre homens sem que ele pareça extremamente patriarcal, mas essa sociedade em geral tem algo por si só que se opõe a essa máxima quase básica: o anseio e respeito pela liberdade. Sua organização é extremamente anárquica, social e cooperativa, e nesse sentido não acaba por revelar uma relação de poder. O que poderia se revelar patriarcal se torna em medida muito mais diluída, fraternal – ou mesmo paternalista.

O dispositivo inicial do filme por vezes chega a incomodar um pouco, em especial os que já viram o supracitado longa anterior de Joaquim, onde Nuno é um dos personagens mais presentes. No entanto, há de se valorizar duas questões que são lançadas diante das reflexões do narrador onisciente diante das imagens de um passado não tão distante: o que havia em comum entre os realizadores e aquela comunidade em si (aonde nem mesmo o idioma português era “retribuído” por locais que se expressavam mais regularmente no dialeto açoriano), e também a consciência do caráter transitório: “estamos aqui, faremos esse filme, logo mais não estaremos aqui… quanto mais haverá uma comunidade como essa nos Açores?”. Questão que jamais é respondida de forma contundente, mas que revela uma preocupação com os grandes mercados de peixe que aos poucos dizimam o ecossistema oceânico, algo completamente intangível à realidade de coexistência entre o mar e essa pequena tripulação que, ao evoluir em condições, obtém um barco de apenas 12 metros de diâmetro. O barco anterior, ainda menor, representava até então a união entre a família dos personagens principais retratados no filme, e a aquisição do novo barco traz diversas consequências a seus capitães: a necessidade de uma nova licença fará com que eles tenham de se aprimorar não só como pescadores, mas fará com que retomem os estudos há muito tempo deixados de lado.

Por fim, o filme é um apanhado de questões retóricas, de reflexões sem conclusões práticas (isso é um elogio, antes que me interpretem mal), e que nos faz pensar sobre o futuro tendo o passado como comparativo. O filme em si é sempre consciente de que essa é uma realidade transitória, de uma sociedade que há muito se organiza de tal forma, mas que está fadada ao ostracismo completo, diante de um turbilhão de novas formas de exploração do trabalho que praticamente atropelam todos à sua volta. Os reflexos dessa globalização estão presentes de forma extremamente singelas, ao pensar no mercado que consome a pescada do grupo, bem como a introdução do Euro no lugar do antigo Escudo Português.

De qualquer forma, acredito que seja um filme que traz consigo todas as qualidades e leveza para iniciar um festival internacional, e que propõe questões a serem refletidas, ao contrário dos cada vez mais comuns “filmes tese”. Que os próximos dias revelem boas novidades.

A programação completa está disponível no site oficial do evento.

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