Cinestésico entrevista: Ewerton Belico

Ewerton Belico trabalha com curadoria no Forum.doc.br e realização cinematográfica na produtora audiovisual Vasto Mundo. É um dos diretores do longa Baixo Centro e nos concedeu a seguinte entrevista, após a exibição de seu filme no Olhar de Cinema. A ideia foi relacionar sua obra e pensamento com a temática do cinema brasileiro.

Cinestésico: O filme Baixo Centro transmite um certo estado de espírito que vivemos nos últimos anos no Brasil. Como foi a origem do filme, da ideia que moveu ele?

Ewerton Belico: O filme é meu e de Samuel, ele já tinha realizado outros filmes anteriormente, em parceria com outras pessoas. Inclusive ele é um dos diretores de um projeto coletivo, o Estado de Sítio, do qual participaram Maurílio, o Andrezera, o Leo Pirata, enfim… Eu diria que Baixo Centro é o fruto de dois encontros: além do encontro meu e de Samuel, um encontro de Samuel com Belo Horizonte, em especial com o centro de Belo Horizonte, que é o momento em que ele se muda pro centro de BH; e o encontro meu com o Aglomerado da Serra, esse conjunto de vilas que fica na região centro-sul de Belo Horizonte. Um dos maiores conjuntos de vilas do Brasil, dezenas de milhares de pessoas, onde eu fui professor de vídeo durante alguns anos. E Baixo Centro tinha muito a ver com uma certa vitalidade cultural e mesmo existencial que a gente via nesses espaços. E também no fato de que Belo Horizonte é uma cidade planejada, onde tudo é feito para convergir para o centro da cidade. Afora os vários aspectos perversos disso, tem um aspecto em especial que é muito interessante: o centro de Belo Horizonte é especialmente povoado, comparado com outras capitais brasileiras. Então essa vitalidade era algo que nos interessava. E o motor inicial do roteiro de Baixo Centro tinha a ver com isso. O processo do filme foi um processo muito longo, e a gente teve a oportunidade de testemunhar essa vitalidade morrendo, sendo massacrada, pela gentrificação, pelos esforços de desocupação do Aglomerado da Serra. Uma das maiores vilas do Aglomerado da Serra, a Vila Cafezal, um terço dele foi demolido num período muito rápido.

Cinestésico: Esse processo longo, você diz quando?

Ewerton: Em 2012 a gente começou a escrever o roteiro, a gente terminou e ganhou um edital em 2014. Dois anos depois. Esse período de dois anos fez com que o filme deixasse de ser um filme de celebração dessa vitalidade, pra virar um filme de fossa, um filme da ressaca, do luto, disso que a gente tinha testemunhado morrer rapidamente durante esse período. Os espaços, alguns deles, não existem tais como, se modificaram bastante. Mas eu diria que a mudança do roteiro, se é pra pensar num contexto mais geral, é uma mudança bastante impactada pelo pós-2013. Num momento em que a repressão às manifestações viram uma repressão no espaço público brasileiro como um todo. Tudo que mobilizava coletivamente as pessoas, porque veio um ímpeto desmobilizador absurdo. De esquerda e de direita. A solução era a desmobilização. Enfim, por exemplo, uma articulação coletiva que foi construída no Aglomerado da Serra e que demorou mais de uma década para ser construída foi destruída em um ano, acabou em um ano. Então, quando eu falo em um filme de luto, eu falo de um filme de luto de uma perda de experiência coletiva. Baixo Centro é um filme sobre o fracasso dessa utopia moderna por excelência que é a cidade, enquanto lugar de experiência coletiva.

Cinestésico: Você falou que foi professor, você foi professor do que?

Ewerton: De oficinas de vídeo. Mais de um projeto de oficinas de vídeo no qual eu trabalhei, e antes disso a gente já tinha uma parceria ali, em especial com a Vila Marçola, em que o Forumdoc realizava uma extensão dele lá no Aglomerado da Serra. Considerando a extensão mais o período que ministrei as oficinas, dá cerca de seis ou sete anos, mais ou menos.

Cinestésico: Em BH o junho de 2013 foi muito violento. E você falou que é um pouco afetado por isso, como isso afetou a vocês e ao filme? Até 2014 haviam filmes com um certo contexto, uma mesma semântica, se pudesse tratar dessas questões. Os filmes respondem ao seu tempo. Se pudesse comentar isso, você falou agora do luto, como vê isso?

Dir. Ewerton Belico e Samuel Marotta | ficção | 80’ | Brasil

Ewerton: Pois é, eu penso um pouco diferente. Se de fato parecia que até meados do governo Dilma, havia um grande consenso que revelou-se falso, era justamente o cinema brasileiro que frequentemente apontava as lacunas desse consenso. Com filmes muito diferentes entre si, o cinema como que profetiza e antecipa o incômodo, e uma rejeição mais geral às instituições políticas brasileiras, e aí podemos pensar em filmes muito diferentes entre si: Corumbiara de Vincent Carelli, Riocorrente de Paulo Sacramento, Brasil S/A do Marcelo Pedroso, Branco Sai Preto Fica do Adirley. Todos esses são filmes do “fora todos!”. O cinema brasileiro daquele momento, o que era mais próximo de um consenso dentro de um cinema independente, que estava trabalhando fora dos grandes orçamentos, era justamente apontar um incômodo diante do que parecia um consenso generalizado. E o que me parece que acontece, é que no pós-2013, e isso se aguça no pós-2016, é que a compreensão política, a autocompreensão que o cinema brasileiro independente começa a fazer de si mesmo passa a ser reenquadrado nos velhos termos da polarização entre PT versus direita. Então a gente pode pensar mesmo em trajetória de diretores, filmes que eram bastante críticos em relação ao nosso status quo político, como por exemplo Futuro Junho, ou Seca, da Maria Augusta, logo em seguida ela faz O Processo. Mesmo Branco Sai… e A Cidade é uma só? São filmes em que a vitalidade da periferia se opõe ao sistema político brasileiro como um todo. O retrato da campanha da Dilma não é nem um pouco favorável, no A Cidade é uma Só?, no Era Uma Vez Brasília, a gente já está vendo que a disputa política se coloca mais uma vez numa polarização mais tradicional pré-2013. Então eu diria que o efeito do 2013 e o 2016, foi justamente fazer o cinema brasileiro retroceder pra uma polarização que o próprio cinema brasileiro vinha apontando como superada. No que diz respeito especificamente ao Baixo Centro, sobre isso: eu acho que essa pulsão mortífera, do Baixo Centro, o agravamento da crise só fez aumentar isso que já estava associado ao filme, esse ímpeto somente se aguçou, se tornou mais claro pra gente. E isso, num filme sobre a morte, é um filme sobre coisas que não existem mais. Eu me lembro de um slogan, de 2016, “não é luto, é luta”. Não, é luto sim. É preciso, o processo freudiano, é preciso desinvestir o desejo do objeto, é preciso entender que o objeto foi perdido. Só é possível sair da repetição perversa com o processo do luto.

Cinestésico: O luto mal resolvido?

Ewerton: O luto mal resolvido é a melancolia. É a repetição perversa da busca do objeto de desejo que foi perdido, é preciso luto sim.

Cinestésico: São coisas que até falamos um pouco, desse mal estar, que nos encontramos, de não ter um certo descanso, embora esteja todo mundo querendo se organizar e se encontrar, a sessão acaba num silêncio… Isso está nas escolhas estéticas? O uso da trilha, a questão das personagens em trânsito, uma topografia do local. E a questão da construção dos personagens casais, de identidade, como se deu essas escolhas?

Ewerton: Desde o projeto inicial havia a ideia de que você formasse casais com pessoas de classes sociais diferentes. E é a manifestação da possibilidade e a impossibilidade dessas relações. Essa vida coletiva que é insinuada no começo do filme, o centro da cidade começa cheio e se esvazia, a cidade começa cheia e ela vai se esvaziando. A manifestação subjetiva dessa impossibilidade é a impossibilidade da continuidade dessas relações. A gente queria sim que tivesse portanto casais de classes sociais diferentes. E a ideia sim, de que as pessoas de classe média, as pessoas ricas, da elite brasileira, fossem mulheres, por alguns motivos: primeiro, porque não nos interessava filmar o mundo dos ricos, nos interessava com o filme devolver o centro da cidade a quem ele de fato pertence, que são as pessoas pobres. Os pobres de Belo Horizonte de fato é que são os donos do centro da cidade. Interessa que o filme devolvesse isso. E interessava que tivesse essa circulação das pessoas. E a gente sabe que seria absolutamente irrealista, num filme que se pretendeu exclusivamente noturno, tentar figurar uma representação com um mínimo de naturalidade, da circulação de mulheres solitárias pelo centro degradado de Belo Horizonte à noite, não era exatamente uma possibilidade. Tanto que a personagem feminina que circula pela cidade, da Luiza, personagem da Bárbara Colen, está neste momento em que o centro está muito lotado, o encontro dela com o Gu, é justamente o ponto de virada pra cidade desertificada. Então essa virada exigia que as personagens mais pobres fossem masculinas, e não femininas. A gente tem um marcador racial muito claro na diferença de classe no Baixo Centro.

Cinestésico: Até pegando esse gancho, de personagens que estão à margem, uma coisa que chama muito atenção, nesse fio condutor, desde a primeira cena tem um atabaque, que não-diegético vai anunciando alguma coisa. A mim sintetiza tudo, a questão que está à margem, como foi isso de colocar esses elementos no filme?

Ewerton: Então, vindo do comentário anterior, esse marcador racial da divisão de classes, que inicialmente, pra ser mais rígido, foi o casting da Babi, que é uma atriz negra de pele clara, mas uma atriz negra, para um personagem da elite brasileira, que fez com que a gente achasse que a gente precisasse criar um inverso simétrico entre os personagens pobres também. Por isso a escolha de um ator branco pra fazer um personagem pobre, que é o Renan. Mas enfim, é claramente racializada a divisão de classes no Baixo Centro, como no Brasil o é. Essa presença era uma coisa que atravessaria o Baixo Centro, isso a gente sempre teve, de diversos modos: desde aquele ponto, que é uma das células de origem do Baixo Centro. Ela mudou de lugar no roteiro, mudou de lugar na montagem, mas aquela presença do ponto sempre existiu. O que insinuava a presença de uma cosmologia afro no filme, que não é literal, não é reencenação de mitos, mas existe no filme como que informado por essa cosmologia afro. Mas uma das cenas que é de origem do filme é o duelo de MCs, a cena que os personagens se beijam no duelo de MCs, sempre quis filmar o duelo, que hoje inclusive não acontece mais. O que acontece, é que muito na raça eles vinham fazendo o duelo à noite, só que na completa ausência de infra estrutura, de apoio, de violência policial, eles decidiram começar a fazer no meio da tarde de domingo, e não tinham como continuar fazendo.

Cinestésico: Uma outra pergunta: o personagem que tira fotos, me remeteu ao fazer filmes, a necessidade de memória, de discutir, tudo isso que você falou, que aparece que a cidade vai se apagando sem a gente poder decidir isso, como foi?

Ewerton: Aquele personagem é inspirado num amigo meu, foi um parceiro de oficina lá, o apelido dele de fato é Djamba, o Reinaldo, que trabalhou no filme, na pesquisa de locação, foi produtor de locação conosco. Ele é de fato fotógrafo, um fotógrafo bastante talentoso. E eu me lembro de uma conhecida que é artista, que ela ia fazer uma residência fora do brasil, e ela estava pedindo materiais familiares, super 8, slides, VHS… E ela falou “quero de várias raças, de várias classes sociais”. E eu falei “você está querendo de gente rica, né? Porque não é exatamente o tipo de dispositivo de lidar com a memória de quem é pobre”, e eu comentei com o Reinaldo disso. E ele falou “Pois é, por isso que estou tirando foto aqui o tempo todo, porque ninguém aqui tem foto, ninguém tem foto de nada”. Então eles derrubam metade da favela, e dois anos depois falam com você que sempre foi daquele jeito, que nunca teve favela ali, porque ninguém tem foto, não tem nada. E esse personagem é um personagem que escuta a voz dos mortos, a foto tem muito a ver com isso, essa coisa do sujeito que lembra o que ninguém mais lembra, aquilo que não pode ser lembrado, aquilo que é programaticamente esquecido.

Esta entrevista foi realizada por Frederico Neto e Vino Carvalho. Foto cedida por Leticiah Futata.

Cinestésico entrevista: Rafael Mellim e Chico Santos

Chico Santos e Rafael Mellim, fundadores do Coletivo Bodoque, acreditam num cinema transformador. Da interação com moradores de uma ocupação em Santos, surgiu o curta-metragem Estamos Todos Aqui, que recebeu Menção Especial no festival Olhar de Cinema. A partir da exibição do filme, conversamos sobre o que pensam sobre o cinema brasileiro.

Cinestésico: Se puderem começar comentando: de onde veio a ideia do filme?

Rafael Mellim: A ideia do filme nasce quando a gente percebe que é insuficiente e até perigoso debater isoladamente os problemas da nossa classe, muito comum na ideia de pautas identitárias. Entendemos que a pauta LGBT, só pra citar um exemplo, é indissociável da estrutura de classes da sociedade capitalista e de toda a história. Como o capitalismo reincorporou opressões antigas e criou novas? Seria um erro isolar ou esquecer de qualquer opressão, seja racismo, lgbtfobia, machismo, especismo, quando a gente quer falar de capitalismo e vice-versa. A História é a história de todas essas opressões. Daí o perigo de analisar as opressões sem seus contextos históricos e um erro tão grave quanto esquecer ou apagar qualquer uma dessas opressões quando analisamos a sociedade capitalista.

Chico Santos: E o curta é uma mistura de ficção e documentário, que conta a saga de uma jovem, negra, transexual, que está buscando um lugar no mundo e que precisa ocupar os espaços negados a ela. A nossa personagem é expulsa de casa e precisa construir um barraco na luz do dia pra ter onde dormir naquela mesma noite. E a fábula é contada no cenário real que é a Favela da Prainha, que está cravada no Porto de Santos. Esta é a história de muitas mulheres daquele lugar. De muitas das pessoas que vivem naquelas palafitas sobre o mangue, sem saneamento, esgoto, sem nada. Mas a favela está em uma área muito nobre e tá sempre sofrendo ameaças de despejos mal planejados para a expansão da zona portuária, que não levam em consideração as famílias, os vínculos que estão ali. Então nossa personagem, que já é massacrada pela sua identidade de gênero, por sua cor de pele, precisa lutar para conquistar um espaço de terra. Acaba que é um filme dirigido por dois gays e protagonizado por mulheres negras e olha para os corpos marginalizados pensando nas suas potências revolucionárias.

Rafael Mellim: Isso lembra o que a Angela Davis diz que quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela. Ela fala isso e explica que esse processo se dá porque as mulheres negras estão na base da pirâmide social do capitalismo. Então é só imaginar onde estão as mulheres negras trans e travestis: na base da base. Outro ponto é uma coisa muito evidente que acontece na Favela da Prainha que explicita a sociedade dividida em classes. A favela está às margens do maior porto da América Latina. Isso quer dizer que os moradores da Prainha convivem todos os dias com toda a mercadoria cortando seus espaços, em navios e trens que estão lá 24 horas por dia. Também tem muita gente da Prainha que trabalha no porto. A dor nasce nessa contradição, nesse nó: quem produziu essa mercadoria toda está despossuído. A Prainha expressa isso a todo o momento.

Chico Santos A Rosa Luz, que é quem interpreta a adolescente do filme, na vida real tem um canal no Youtube e canta rap, e lá no seu canal ela já falava sobre os mesmo temas que a gente pesquisava, e por isso nos aproximamos. Mas ainda antes disso, é importante dizer que eu e Rafa, enquanto um casal gay, desejávamos falar com as LGBTI. Sabemos que as militantes LGBTI têm tarefas muito difíceis, como a de fazer o debate sobre as execuções das pessoas trans no país que mais mata travesti. E a gente quis se aproximar, pra refletir junto sobre essa nossa condição no capitalismo, nesse “estado de coisas”.

Rafael Mellim: E de alguma maneira responder à própria visão do mercado. Da lógica da mercadoria que coloca as lutas em baias por interesses próprios.

Chico Santos: Desde as jornadas de junho de 2013, que foi quando a gente se juntou pra virar o Coletivo Bodoque, que ouvíamos muito a palavra de ordem “empoderamento”. Depois se transformando em slogan de campanhas publicitárias. Pois então, bora se questionar sobre o que é “poder”, ou, que poder é esse que está contido na palavra empoderamento que estampam por aí? Se queremos poder, é preciso tomar o poder. Certo?

Rafael Mellim: Decidir o rumo da nossa vida na esfera pública também.

Cinestésico: Uma questão: poder popular e empoderamento são coisas antagônicas?

Rafael Mellim: Parece que um está falando mais da vida pública e outro mais da vida privada. Mas se a gente levar à risca, empoderar-se não é decidir sobre a própria vida? Impossível fazer isso só na vida privada, por exemplo, se a gente ainda tiver que vender nossa força de trabalho pra um capitalista.

Cinestésico: Nesse gancho da questão mais política: esta edição do Olhar de Cinema, se pegarmos a programação dos filmes, muitos têm pautas identitárias. Como o filme de vocês mais diretamente, mas o festival no geral. Como vocês vêem isso?

Chico Santos: Me parece inevitável que todos os festivais estejam atentos às desigualdades de gênero e de raça. A luta se fez de baixo pra cima e não teve saída, senão abrir as portas antes que elas fossem derrubadas. Mas isso não quer dizer que temos condições super favoráveis para aprofundar os debates ou colocar eles em perspectiva histórica.

Cinestésico: Seria isso, há essas pautas identitárias, mas falta o debate classista que vocês fazem?

Rafael Mellim: Não acho que a gente é modelo de debate classista nas artes, longe disso. Tem muita gente boa na história que dedicou toda a sua vida tentando criar uma arte que correspondesse às necessidades da nossa classe e do nosso tempo. O Brecht, por exemplo. Fico pensando quantos artistas, os que não são filhos da burguesia, não conseguem pensar sobre isso. Falando só das artes. Porque a grana está na mão dos bancos e grandes empresas. Então são essas corporações que vão dar uma espécie de reforço positivo para esses artistas e também curadores, críticos. Tudo isso em cascata. Assim se cria uma cultura covarde e reacionária, capaz de naturalizar a pior barbárie, como o capitalismo ou sociedades autoritárias no geral. Não é culpa das pessoas mas sim reflexo de como está estruturada a sociedade e como está organizada sua produção no geral. E é muito especial quando artistas e todos os envolvidos na produção e difusão das artes conseguem furar essa bolha, mesmo que momentaneamente. É a luta de classes em curso. Tenho muita curiosidade de saber onde pode chegar a arte se superarmos o capitalismo. Tenho certeza que para debates muito mais avançados, entendíveis e livres, simplesmente porque estaremos livres da espera desse reforço positivo, que nada mais é do que a necessidade de sobrevivência.

Chico Santos: Acho até que quem está na disposição de abordar temas sociais com responsabilidade, na grande maioria, são realizadores que vivenciam as realidades de exclusão. Mas pensar um filme dentro de um propósito, um filme com debate classista, é preciso algumas ferramentas, dominar minimamente alguns conceitos que não te deixam cair no repeteco do cinema nacional que contempla a pobreza como paisagem estática, imutável. E a gente tem dificuldades para se instrumentalizar, porque não somos filhos de banqueiro e o nosso tempo que poderia ser de reflexão e estudo, a gente vende esse tempo por qualquer mixaria pra pagar o aluguel, como qualquer trabalhador. E o cineasta filho de banqueiro é que não vai querer fazer o debate de classes, né? Olha, dá pra dizer que boa parte do que assistimos nos festivais este ano, e aqui no Olhar de Cinema também, tem a vontade de mudança que mostramos no nosso filme. Mas como entender as forças que operam nessa bagunça? Como entender tudo o que sustenta as contradições de uma sociedade dividida em classes se a gente aprende o tempo todo que não é pra falar dessas coisas? Eu e Rafa não estudamos em escola de cinema, nosso caminho é outro. Mas sabemos que isso não é coisa que se aprende nas escolas de cinema. Enfim, a gente sabe que tem uma leva grande de realizadores como a gente, com uma baita disposição de luta, mas que em algum momento podem ser absorvidos pela velha lógica da indústria cinematográfica.

Cinestésico: Questão mais factual, quando foi filmado o curta?

Rafael Mellim: Foi filmado em 2016.

Cinestésico: E quanto tempo depois de filmado ficou pronto?

Rafael Mellim: Um ano depois.

Cinestésico: Nessa questão da forma, no contexto dos filmes brasileiros contemporâneos, a maioria dos filmes têm uma estética mais arrastada, contemplativa. O filme de vocês, em oposição, é um choque. Nessas conversas aqui no Olhar, a gente falou de um certo pessimismo, um luto, e o filme de vocês vai pra um outro lugar. A gente estava conversando, que até 2014 tinha uma certa semântica, tanto na política quanto no que o cinema expressava… Em 2013 isso já entra em crise, e não se vê nenhum filme que tem uma nova chave, e o de vocês parece conseguir.

Rafael Mellim: A gente se deu a tarefa de fazer filmes para serem entendidos por qualquer pessoa, sem precisar ser especialista em decifrar os códigos do cinema. O que a gente faz é pra todo mundo. Temos pensado o quanto a melancolia é um instrumento de poder. Nossa posição sobre isso tem muito a ver com o título do filme.

Chico Santos: Eu e o Rafa viemos do teatro, então nossas referências são de teatro de grupo, de processo colaborativo. Neste curta conseguimos desmontar muito da hierarquia patronal do cinemão. Acho que isso ajudou o curta a ter energia, entende? Porque eram várias mãos, várias cabeças pensando e se conflitando. Acho inclusive que isso ajuda a sair de qualquer possibilidade de ensimesmamento do artista.

Esta entrevista foi realizada por Frederico Neto e Vino Carvalho. Fotos cedidas por Leticiah Futata.

Olhar de Cinema – Estamos Todos Aqui

Dir. Chico Santos e Rafael Mellim | ficção | 20’ | Brasil

Um filme de quem tem as mãos sujas, de quem acredita na ação política, um pé no midiativismo, um outro pé no cinema. “Salve, salve, meu nome é Rosa Luz, e ontem minha personagem foi expulsa de casa (…) Meu nome é Rosa, não é Lucas. É Rosa”. Se comentei anteriormente das pautas identitárias, que parecem tomar conta do festival como um todo, aqui as discussões têm um recorte de classe.

Há algo de novidade nisso: as entrevistas documentais, a ficção da narrativa construída coletivamente, num senso de comunidade. O aqui do título não é qualquer lugar. Rosa Luz correndo. Rosa Luz não é qualquer protagonista. A youtuber Rosa do Barraco nos interessa enquanto o que é, enquanto o que representa. Sobretudo o que nos diz! Rosa Luz correndo.

Há uma revolta crescente, que convida à ação, ao levante. Nos revoltamos juntos. Rosa Luz correndo. Em meio aos navios enormes, em meio aos trens enormes. Mesmo na breve conversa no mercadinho, está todo mundo conversando sobre a desocupação. Rosa Luz correndo. Essa câmera colada à pele e ao corpo é companheira, caminha ao lado enquanto as crianças gritam “traveco! traveco! traveco!”, e enquanto Rosa “faz seus corres”, faz seu barraco, busca uma casa própria.

Uma cena à deriva dentro do corpo do filme: toda gente num barco, que passa por debaixo de tudo, da infraestrutura da sociedade, da tal “base da pirâmide”. Por um breve momento, respiramos em meio a esse caos crescente. Os rostos em primeiro plano, entrevistos em meio à luz intermitente, de um sol muito distante. Silhuetas granuladas na escuridão, essas pessoas que ficavam sempre à margem, cada vez mais visíveis, cada vez mais protagonistas.

Rosa correndo, Rosa correndo, Rosa correndo. Há aqui uma urgência, vinda de baixo pra cima, de quem é arrancado de onde já se vive muito mal, pra ficar sem onde morar. Não interessa muito a análise da conjuntura, se foi golpe ou se a culpa é dos patos, se havia corrupção, ou se estamos em ano de eleição. Estamos todos aqui. Não há paciência histórica que dê conta, não há pedagogia, há sangue nos olhos e essa necessidade de aqui, e também de agora. “Adiar é tornar impossível”. E essa forma de pensar e viver coletivamente se dá sobretudo no fazer cinema: e aí, o que deve acontecer? As pessoas respondem, com aquela sabedoria da vida que nos tira o fôlego, os diálogos vão virando palavras de ordem, os pensamentos vão virando ação política. O que acontece no fim? O público também deve responder.

Olhar de Cinema – Baixo Centro

Dir. Ewerton Belico e Samuel Marotta | ficção | 80’ | Brasil

Um atabaque estranhamente anuncia algo por acontecer. E nos avisa que o que vemos e ouvimos fora do pequeno enquadramento também é importante. A noite que nunca acaba. Alguém cruza um cemitério em meio a essa cidade noturna. “Bairros, cidades, estrelas, constelações”, me pego cantando. Baixo Centro é um mar de luzes. “Homens, mulheres, segredos, imperfeições”. É como se o mundo do ritmo diurno, cheio de pressa e movimentação, precisasse desse submundo sombrio para existir. Sabemos desse intercâmbio. Apesar da promessa de ter tudo ao alcance, do mercado ou da conveniência 24h, desse mundo de informações ao nosso alcance. Apesar de nossas tentativas individuais ou plurais de engajamento, de ocupar e transformar o espaço público e nossos relacionamentos de melhor forma, sabemos da  desmobilização, da especulação, da violência, da matança, do apagamento… Disparado o filme que mais mexeu comigo nos últimos tempos – talvez porque encontramos na grande tela o que temos visto demais nas noites e ruas escuras e frias.

Em pequenos momentos de encontros fortuitos, de uma pretensa vida cultural urbana, a esperança se desfaz em karma coletivo. Não há vitória, não há sucesso, não há solução. A cidade nunca pareceu tão grande diante do corpo e da razão, enquanto perambulamos nesse limite, de lá pra cá, num labirinto de planos e contraplanos. Volta e meia nos deparamos com presenças e ausências do além, além do campo, da quarta parede.

O que está à margem aqui é central. O periférico, a exclusão, se mostra numa atmosfera de estranhamento, afinal não acessamos esse submundo em nosso cotidiano, apesar da consciência de que ele existe. Esse estranhamento aumenta a cada longa cena, longas falas sem diálogo, sem olho no olho. Novamente o atabaque, que de alguma forma ecoa na trilha, do rap ao funk, finalmente no ponto de terreiro. Onde foi parar aquela galera que ocupava a rua com cultura? Lá em Belo Horizonte, ou em Curitiba? Tudo desmorona nessa arquitetura do concreto, há sempre um desnível, uma hierarquia entre o que está no alto e o que está no baixo. A cidade de outrora morreu, morreram junto dela, e os eguns estão à solta, nos lembrando disso.

E, assim como o fotógrafo do filme, nos resta registrar tudo isso, quem sabe para um outro momento, em que olharemos para o absurdo dessa situação toda. Então teremos a certeza de que alguém falou a respeito, alguém trouxe isso à tona, teremos memória, teremos Baixo Centro.